A linda história dos Gonzaga

Fazia tempo que esse espaço estava abandonado. Aliás, todos os meus blogues estavam. Mas ontem eu fui assistir Gonzaga – De pai para filho e fiquei encantada.

Não é nenhuma narrativa surpreendente e nem uma forma nova de fazer cinema ou contar histórias. A história é que é boa demais e só se o diretor Breno Silveira não soubesse fazer muito bem o feijão-com-arroz ou contar histórias para que o filme não fosse bom. E ele sabe. E dentro do feijão-com-arroz que ele sabe fazer há um tempero especial… Pitadas de sutileza e doses generosas de afeto.

A emoção não está só em assistir uma linda história mas em perceber o quanto Breno se emocionou ao conhecer os detalhes da história de Gonzagão e Gonzaguinha, onde suas vidas se cruzaram e como. O filme é muito nordestino, tem a alma do sertão de Pernambuco e do baião transversalizada pelo morro carioca, a alma da malandragem do samba. A música brasileira permite, a história brasileira permite, e a vida dos Gonzaga promoveu esse encontro.

Breno não fez uma cinebiografia, nem do pai e nem do filho. É verdade que conta bem mais da história de Gonzagão, mas acho que foi uma forma de fazer justiça também. O filme é, de verdade, uma história baseada em fatos reais. Um recorte da história desses dois gênios da música brasileira, ali naquele ponto em que ela cruza e colide.

Saber mais de Gonzagão e de sua música e gostar tanto foi revelador para essa sulista que vos fala. Saber — ou apenas perceber — como algumas coisas que marcaram tanto sua vida se transformaram em versos de canções eternas emocionou demais. Chorei muito. E precisava contar como foi. Gonzaguinha, que sempre tocou tão fundo a minha alma, teve a oportunidade de dizer a seu pai o que eu não disse ao meu. Ele não foi um privilegiado só pelo dom da música. Saí com esse nó no peito da sala de cinema, mas um pouco mais leve e muito grata ao Breno Silveira.

ASSISTAM!

Cabra-Cega

Existem muitas histórias sobre a ditadura envolvendo nomes importantes e conhecidos, e todas poderiam virar cinema. Algumas já viraram. Esse filme conta a história de pessoas comuns que militaram na resistência contra a ditadura, que se arriscaram na clandestinidade ou mantendo vidas duplas para tentar salvar ou tirar do país os ditos militantes procurados como “terroristas” pelo governo militar.

Thiago (Leonardo Medeiros) e Rosa (Débora Duboc) são dois jovens militantes da luta armada, que sonham com a revolução no Brasil, mas de pontos diferentes desse cenário político. Thiago é o comandante de uma célula dentro de uma organização de esquerda da luta armada, que está no momento debilitada e estuda um retorno à luta política. Ele foi ferido numa emboscada da polícia e precisa se esconder na casa de Pedro (Michel Bercovitch), um arquiteto simpatizante da causa. Rosa é escalada para cuidar dele é seu único contato com o mundo.

O tempo passa e a agonia de viver confinado, o medo de ser preso e a paranoia se os vizinhos desconfiam ou não de quem são de verdade aos poucos vão minando a sanidade do protagonista. Com o impasse da situação, Pedro passa a ficar preocupado com a segurança de todos, e seu comportamento atiça ainda mais a paranoia de Thiago. Mas nesse meio tempo Rosa e Thiago acabam se envolvendo.

Instigante e com uma narrativa perturbadora vai aos poucos nos fazendo sofrer com o protagonista, sentir sua angústia e vibrar com suas pequenas alegrias, como a paixão com Rosa ou o disco do Caetano (já exilado) que precisa ouvir nos fones para não chamar a atenção dos vizinhos.

Não à toa o terceiro filme de Toni Venturi (O Velho, 1997 — documentário sobre o comunista Luiz Carlos Prestes) foi o grande vencedor do Festival de Brasília como Melhor Filme, Diretor, Ator (Leonardo Medeiros), Roteiro, Direção de Arte e prêmio especial pela Pesquisa Histórica. Destaque para a trilha sonora com excelentes releituras de obras de Chico Buarque, principalmente “Roda Vida” que foi adaptada por Fernanda Porto. Sem dúvida, um dos melhores filmes já feitos sobre a ditadura brasileira.

Drama, 107 min. Baixe esse filme ou assista completo aqui.

Este post faz parte da quinta blogagem coletiva #desarquivandoBR, que se realiza de 28/3 a 02/4.

Batismo de Sangue

Baseado no livro homônimo de Frei Betto (pelo qual recebeu o Jabuti, principal prêmio da literatura brasileira em 1985) sobre suas experiências durante a ditadura civil-militar brasileira. Quando estava num convento de frades, no final dos anos 60 em São Paulo, envolveu-se na resistência contra o regime e é esta a história contada no filme, que foca quatro freis: Betto (Daniel de Oliveira), Tito (Caio Blat), Fernando (Léo Quintão) e Ivo (Odilon Esteves). Movidos pelos ideais cristãos de apoiar o povo cerceado em sua liberdade de expressão e manifestação, acabam se envolvendo e apoidando a Ação Libertadora Nacional, comandada por Carlos Marighella (Marku Ribas). As prisões e eventuais torturas de Tito, Fernando e Ivo levam a história a consequências drásticas para todos os personagens.

Esse é o quinto filme de Helvécio Ratton (Uma Onda no Ar) e conta uma história peculiar de freis católicos se envolvendo com uma organização da luta armada enquanto oficialmente a igreja católia apoiava o regime militar. As cenas de tortura são chocantes, explícitas, crueis, e a interpretação de Caio Blat como Tito é tão perturbadora quanto a de Cássio Gabus Mendes do delegado Fleury é nauseante.

Todos os problemas técnicos do filme — como as falas muito certinhas que parecem pouco reais e do próprio roteiro que em alguns momentos se perde na narrativa — passam desapercebidos pela forte aura de realismo em que o filme está envolto. Ganhou Prêmio de Melhor Diretor e Melhor Fotografia do Festival de Brasília.

Intenso, realista, visceral. Um filme que mexe com a emoção e o estômago ao mesmo tempo e cumpre um papel importantíssimo já que a história que conta não está nos livros de história.

Drama, 110 min. Baixe esse filme ou assista completo aqui.

Este post faz parte da quinta blogagem coletiva #desarquivandoBR, que se realiza de 28/3 a 02/4.

O ano em que meus pais saíram de férias

1970. Mauro (Michel Joelsas) é um garoto mineiro de 12 anos, que adora futebol e jogo de botão. Um dia sua vida muda completamente, já que seus pais, Bia (Simone Spoladore) e Daniel (Eduardo Moreira), saem de férias de forma inesperada e sem motivo aparente para ele.

Os pais de Mauro foram obrigados a fugir, por serem militantes de esquerda e perseguidos pela ditadura, e a deixá-lo com o avô paterno (Paulo Autran) que mora no bairro do Bom Retiro, em São Paulo. Porém o avô enfrenta problemas, e Mauro tem que ficar com Shlomo (Germano Haiut), um velho judeu solitário vizinho de seu avô. Enquanto aguarda um telefonema, Mauro precisa lidar com sua nova realidade, que tem momentos de tristeza pela opressão da ausência dos pais, e também momentos de alegria, ao acompanhar o desempenho da seleção brasileira na Copa do Mundo.

Este é o segundo filme dirigido por Cao Hamburger. O anterior foi Castelo Rá-tim-bum (1999). Vencedor de muitos prêmios nos diversos festivais de cinema no Brasil e na América Latina, também foi escolhido como o representante brasileiro para disputar uma indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2006.

Cao Hamburguer foi convencido a mudar o nome original, Vida de Goleiro, porque supostamente afastaria o público feminino. Michel Joelsas, que venceu uma seleção com mais de mil crianças para o papel, convence como ator. É um filme sobre os tempos turvos da ditadura através dos olhos de uma criança e também uma história sobre povos e culturas. Triste demais e ao mesmo tempo terno e sutil. É comovente e arrebatador.

Drama, 110 minBaixe esse filme.

Este post faz parte da quinta blogagem coletiva #desarquivandoBR, que se realiza de 28/3 a 02/4.

A Janela da Frente

Giovanna (Giovana Mezzogiorno), casada e mãe de dois filhos, não é feliz no casamento. Um dia seu marido, Filippo (Filippo Nigro), traz para casa um velho desmemoriado que ele encontrou perdido na rua. Tentando ajudar esse senhor misterioso a recuperar a identidade, Giovanna pede ajuda a seu vizinho Lorenzo (Raoul Bova). O velho é David Veroli (Massimo Girotti), um confeiteiro rico que guarda segredos e remorsos que remontam do período da Segunda Guerra Mundial.

Ao embrenharem-se no passado do velho confeiteiro, Giovanna e Lorenzo vão se envolvendo cada vez mais. Ela descobre que o vizinho a observa todas as noites de sua janela do outro lado da rua, o que a deixa ainda mais atraída por ele.

Esse filme italiano de 2003 tem roteiro e direção assinados pelo turco radicado na Itália, Ferzan Özpetek (O Banho Turco). Foi considerado melodramático demais por alguns críticos, principalmente porque a fotografia de Gianfilippo Corticelli e a trilha sonora de Andrea Crisanti colaboram com o tom extremamente sentimental do roteiro.

Arriscaria dizer que há um “toque argentino” nesse filme. Principalmente pela história secundária que serve como pano de fundo, por vezes se tornar tão ou mais importante que a história principal. Para esse equilíbrio entre as histórias, o diretor contou com o talento indiscutível do veterano Massimo Girotti (Último Tango em Paris e Teorema), que morreu logo após o término das filmagens e teve o filme dedicado à sua memória.

La Finestra di Fronte (título original) fez muito sucesso na Itália e chegou a vencer três prêmios David Di Donatello. Simples, doce, romântico e muito bem protagonizado por Giovana Mezzogiorno, traz ainda a discussão sobre homossexualidade, tema preferido de Özpetek, muito bem encaixada na trama.
Drama, 106 min. Baixe esse filme.

Saraband

Marianne (Liv Ullmann), uma advogada, vai visitar o ex-marido 30 anos após o divórcio. Johan (Erland Josephson) vive isolado na antiga casa de campo e apesar de tantos anos sem se verem, a cumplicidade entre os dois não esmoreceu. Marianne conhece o filho de Johan, Henrik (Börje Ahlstedt) e a sua filha Karin (Julia Dufvenius). Muito rapidamente ela compreende que Henrik, que perdeu a esposa recentemente, tem um amor possessivo por Karin e que Johan só sente ódio e desprezo pelo filho.

Este foi o último trabalho de Ingmar Bergman e o seu 12º filme com Liv Ullmann. Feito para a tevê em 2003, Bergman foi convidado a apresentá-lo nas mostras competitivas dos festivais de Cannes e Veneza do mesmo ano, mas recusou alegando não ter tempo de concluir a versão para cinema, que nunca foi feita. Ele morreu quatro depois.

Esse filme é a continuação de Cenas de Um Casamento (1973), este em película mas já adaptado de uma série também feita para a tevê sueca com seis episódios e que foi um sucesso estrondoso. Saraband foi feito em cinema digital de alta-definição, e apesar de ter prescindido de um diretor de fotografia, Bergman (que era mestre na sua arte) consegue manter uma coerência de cores e um sentimento de nostalgia que atravessam todo o filme, dando tons de outono no início da trama e avançando para as cores de inverno no final.

Quem ainda não assistiu, não torça o nariz para o fato de Saraband ter sido feito para tevê. Cenas de um Casamento também o foi e não perde em nada em densidade e conteúdo para qualquer outro filme do diretor. Ademais, estamos falando da tevê sueca e de Ingmar Bergman.
Drama, 112 min. Baixe esse filme.

Listas de cinema

Se tem uma coisa que inspira listas é o cinema. Todo mundo tem a sua. Os dez melhores filmes da vida — embora não consiga entender como alguém consegue escolher apenas dez ou cinco, enfim –, os filmes para assistir antes de morrer, sem falar nos desafios, como conseguir assistir todos os filmes do seu diretor favorito, colecionar raridades, etc.

De uns tempos para cá, com a blogosfera e tanta gente escrevendo sobre cinema (e isso é muito bacana), começaram a surgir listas de “um tudo”. As sequências de abertura, sequência final — ontem eu postei a minha sequência final favorita –, tomadas sem corte, cenas de morte, de beijo, casamento, perseguição, as mais violentas, suspense e mais uma infinidade. Tem também os mêmes nas redes sociais para contribuir com essa opininação e listagem desvairada.

Ainda não escolhi as listas que farei aqui no Pipoca Comentada, mas achei três bem divertidas para deixar aqui enquanto não apresento as minhas. Quem quiser opinar sobre quais listas seria bacana fazer, estou aberta a sugestões.

A primeira lista é uma seleção de dez beijos marcantes do cinema elaborada pela crítica Cecilia Barroso em 2009 e publicada no site Cenas de Cinema, e inclui beijos de filmes antigos aos mais atuais e até animação.

A segunda dica é uma lista dos 100 cartazes mais bonitos elaborada pelo crítico de cinema inglês TC Candler e publicada em seu site em janeiro de 2011.

Mas em se tratando de cartazes de cinema nada se compara às coletâneas de pôsteres feitas pelo francês Christophe Courtois em seu blog. A mais recente é sobre cartazes com bancos públicos e foi postada no dia 4 deste mês. Confere lá. (o link já está selecionado na hashtag “cinema” e quase todas as coletâneas estão na primeira e segunda página, quando chegar no final da primeira é só clicar em “Messages plus anciens“)

Então, domingo é dia de listas (bebê) aqui no Pipoca Comentada. Sugestões? Na próxima semana publico a primeira.

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