O Círculo

Uma enfermeira anuncia a uma senhora que ela acaba de se tornar avó de uma menina perfeitamente saudável. A notícia é recebida com desespero, ela treme, indaga vezes seguidas se não é um menino. Nas ruas de Teerã, onde mulheres não podem estar sozinhas nem fumar em público, duas ex-presidiárias caminham preocupadas, não fica claro se fugiram ou foram libertadas e nem o motivo pelo qual foram presas. Enquanto isso, uma fugitiva da prisão é escorraçada pelos irmãos por estar grávida. Empenhada em conseguir fazer um aborto, ela procura uma amiga enfermeira que está casada e que entra em pânico ao imaginar que seu marido possa descobrir que ela já esteve presa. Outra mulher, prostituta, é uma observadora atenta da vida e do sistema que a envolve, e ao ser presa na rua olha fixamente uma noiva que passa numa caravana nupcial. Uma outra mulher está tentando abandonar a filha pequena nas ruas, provavelmente tenha sido vítima da mesma injustiça destinada à parturiente da primeira cena – o divórcio compulsório por não ter gerado um varão.
Dayereh (título original) é um jogo de histórias cruzadas que vai arquitetando um retrato tão sutil quanto revelador do papel das mulheres na sociedade iraniana. O terceiro longa do diretor Jafar Panahi, que também o editou e produziu, é um exercício narrativo dos mais criativos que ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza, e que até bem pouco tempo estava proibido no Irã.

Em seus dois filmes anteriores, O Balão Branco e O Espelho, Panahi tinha como protagonistas meninas pequenas e muito determinadas, e O Círculo parece ser a trajetória daquelas meninas quando adultas. É uma inteligente e contundente denúncia contra o cotidiano de proibições e pavor da mulher islâmica, sem ser panfletário ou grosseiramente simbólico, o que só amplia a sua intensidade humana. Um filme muito diferente do cinema ocidental. Tocante e inquietante. Drama, 90 min.

Jafar Panahi

Jafar Panahi, partidário da oposição no Irã, foi preso político do governo de Mahmoud Ahmadinejad durante 50 dias este ano. Preso no dia 1º de março, só foi libertado em 25 de maio após quase dez dias de greve de fome e do envio de cartas ao governo e justiça iranianos pedindo sua libertação assinadas por Martin Scorsese, Steven Spielberg, Francis Ford Coppola, Robert de Niro e Robert Redford, além de campanha com cartazes “Free Jafar“, muitos protestos durante o Festival de Cannes e um pedido formal da França ao Irã. Panahi ainda pagou fiança equivalente a U$ 200 mil.

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