Invictus


Por Ana Paula Penkala

É um dos filmes mais bonitos que vi nos últimos tempos. Alguns momentos piegas, é verdade. E não teria como não ser, porque temas como esse nas mãos do cinema norte-americano sempre são trabalhados com algum toque de pieguice, embora o diretor seja o genial, mestre, excelente e precioso Clint Eastwood. Clint sempre foi bom diretor, e agora, depois da idade avançada, cada vez mais profícuo. Além de ser um personagem, Clint leva pros seus filmes, na direção, também uma marca, como é inevitável ver em A MENINA DE OURO e GRAN TORINO. Mas é um diretor generoso suficiente pra abrir mão dos próprios maneirismos quando não existe nenhuma necessidade disso. Por isso, apesar de ter criado um gênero, o velho Clint também se prova um cineasta flexível no sentido mais feliz da palavra. Obstinado, honesto e engajado, especialmente quando filma dramas históricos.

Em INVICTUS ele vai repetir a parceria com o amigo e também excelente ator da velha guarda hollywoodyana Morgan Freeman. Que, por sinal, se tornou amigo pessoal de Nelson Mandela e acabou encarnando o próprio no filme de Clint a pedido do próprio líder africano.

Fora toda uma direção de arte e de fotografia competentíssimas e uma edição de som emocionante, INVICTUS também acaba por ser um filme maravilhoso por conta desse terceiro ponto da triangulação, desta vez um ator jovem: Matt Damon. Não gostava dele, confesso. Comecei a gostar em ONZE HOMENS E UM SEGREDO (e daí em diante na série de filmes) e depois, e principalmente, quando ele encarnou Jason Bourne (tenho a trilogia em casa, inclusive, de tanto que gostei dos filmes).

Não é possível desconsiderar a causa em nome de que o filme fala, mas se for o caso, o filme emociona sinceramente mesmo sem considerarmos toda uma luta contra um regime racista na África do Sul. Apartheid à parte, a emoção genuína que o filme faz surgir pode se dever também ao esporte, ao tipo de sentimento que faz com que se aceite uma dança de guerra Maori em pleno estádio ou que se ultrapasse a dor dos encontrões hooligans do rugby pra superar limites que são muito invisíveis. Isso, com certeza, soa sempre piegas. Mas não tem jeito, existe sempre uma coisa ancestral nesse tipo de emoção, e pra muitos a origem disso pode estar no esporte. Eu mesma, apesar de atleta lá em mil novecentos e guaraná de rolha, vivi muitos anos criticando o esporte e tal. De fato, viver pra isso, só falar disso e fazer do esporte um caminho no sentido contrário da reflexão é o tipo da coisa que me irrita. Mas só depois que tu te encontra numa dessas práticas de superação física é que tu entende o porque de esportes serem o ópio que alucina o corpo de muitos atletas. E porque existe um grito sempre guardado na garganta de quem se propõe a assistir a uma batalha campal dessas, sem espadas ou escudos.

INVICTUS é bonito, e a relação que se constrói entre o líder negro de uma nação e o líder loiro de um time de rugby garante os melhores momentos da história, especialmente naqueles que acabaram dando título ao filme. O poema INVICTUS, que Nelson Mandela usava como suporte na prisão e que serviu de lição ao capitão do time, cria uma linha que pontua as quase 2h30 do penúltimo trabalho de Clint com um tom forte e profundo. Mas é numa fala de Mandela sobre o time que é possível resumir a questão racial duma forma tão singela quanto verdadeira. Na sua tarefa presidencial de cordialidade (sincera, dá pra ver) pra com o time de rugby, Mandela tenta decorar todos os nomes e fisionomias dos jogadores. Chestter é o único negro do time, em sua maioria formado por homens com olhos e cabelos claros. Conversando com sua assistente, Brenda, Mandela comenta de estar estudando pra não errar na hora de falar o nome dos membros do time ao cumprimentá-los um a um. E diz que Chestter é fácil demais de se identificar. Por alto, parece que ele só estaria dizendo que sabe quem é Chestter porque ele é o único negro. Mas volta lá e vê a cena de novo. Mandela fala sobre identificação, sobre olhar o rosto do jogador e relacionar com seu nome. Nesta fala do filme fica muito claro que, pra Mandela, ligar o nome à pessoa de um branco (especialmente brancos como aqueles) é difícil porque, pra ele, os brancos todos se parecem.

Soa Racista?

Pois não acho. Nós, brancos, vivemos tendo a impressão de que negros, índios, asiáticos, todos se parecem muito entre si. É hipócrita pensar que isso é racismo. Estamos falando de gente, e gente é tudo animal. Negros, brancos, índios, asiáticos, todos somos da mesma raça humana. Mas a biologia determina que reconheçamos mais facilmente as diferenças entre aqueles que são parecidos conosco. O racismo nisso fica por conta da sociedade, que pega a lei biológica e transforma num horrendo e abominável “negro é tudo a mesma coisa”, “japa é tudo igual mesmo!”. Aquela fala de Mandela é simples, mas profunda. As pessoas com as mesmas características que ele são facilmente distinguíveis. Os brancos, os brancos de olhos azuis e cabelos loiros, se parecem todos uns com os outros. Se a gente parar pra pensar, é assim mesmo.

INVICTUS não é um filme sobre esporte. E nem sobre política. E nem sobre racismo. Na verdade, na verdade, INVICTUS é um filme sobre gente. E, apesar de tudo, gente me interessa. Drama, 134 minBaixe esse filme.

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  1. As bisca pira no Clint | - 31/05/2012

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