Gran Torino

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Por Adriano Vilas Bôas
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Uma pequena obra prima do cinema. Cada plano do filme fala como um quadro, têm-se a impressão de que o filme poderia ser contado através das fotografias, cena por cena.
A composição da paisagem fala por si só, os diálogos se apresentam como complementos do que já é dito, do que já transborda em cada fotograma.
Composição de planos esta, auxiliada pelos movimentos de câmera, que de tão sutis e precisos, evidenciam a devoção do diretor para com o cinema puro, onde a técnica está tanto em prol da história a ser contada, que acaba por se dissolver em poesia. Tudo isso, aliadao à trilha sonora de Jamie Cullum, com direito a música tema interpretada pelo próprio Clint.
As relações entre as personagens pintam a obra principal. Desta troca silenciosa e sincera, Clint nos apresenta o mundo de Walter Kowalski, ou melhor, como essa figura quase mítica ,encarnação de todos os personagens da carreira do ator, estão dissolvidos em um só. Num velho, que procura espaço num mundo que mudou sem antes pedir permissão a seu habitante mais antigo. Sendo este, o primeiro dos muitos ecos de “Onde os fracos não têm vez”, 2008, dos irmãos Coen.
Um filme que começa e termina com velórios, mas retrata muitas portas se abrindo. Temos um diretor muito consciente do fim de um ciclo, o término de uma era, onde somente o encontro entre o velho e o novo, entre Walter e Thao, são capazes de transformar o mundo. Temos muitas cenas onde nosso olhar é direcionado para a abertura de portas, do lado de dentro, como se junto dos personagens também recebêssemos as pessoas em nossa casa, em nosso repertório de imagens. São planos que clamam pelo encontro. Fronteiras entre vizinhos são quebradas, e uniões estabelecidas.
Quando Sue (em ótima performance de Ahney Her), afirma que gostaria que o pai fosse mais parecido com Walt, e este questiona a razão, a menina simplesmente afirma com ar de dúvida “because you´re american“, Walt se pergunta o que isso significa. Nenhum dos dois sabem o que significa ser americano hoje em dia. Walter, até então americano, representante da velha guarda tradicional de homens que foram para a guerra (Coréia, 1951) e trabalhavam nas grandes montadoras da Ford, símbolo este, representado pelo carro que dá nome ao filme. Carro este, produzido e dirigido pelo personagem, da fábrica até sua casa. Marco da prosperidade norte-americana nos anos 50 e seu “american way of life” tão difundido mundialmente. Nos EUA de hoje, Walt vê o bairro, antes lar de trabalhadores americanos, ocupado por imigrantes Hmongs, negros, chineses e mexicanos.
Difícil não estabelecer um paralelo entre o personagem de Walter Kowalski, com o Stanley Kowalski de Tenessee Williams, em “Um bonde chamado desejo”, romance de 1941 ,interpretado nos cinemas por Marlon Brando. Ambos são descendentes de imigrantes do fim do séx. XIX, mais especificamente de poloneses, são sucessores da geração que construiu as bases da nação que viria a vencer a Segunda Grande Guerra. Assim como Walt, Stanley fazia o tipo durão, patriota, republicano, dotado de uma ética própria e particular, alheio a tudo que lhe tira da rotina de trabalho árduo e pequenos prazeres com os amigos, seja o boliche para o segundo ou o bar para o primeiro.
Com a diferença de que o Kowalski de T. Williams fazia sentido no tempo-espaço que ocupava (anos 40), já o Kowalski de Clint tenta recuperar o espaço que um dia ocupou, nem que para isso precise alcançar a tão temida e ao mesmo tempo almejada, redenção.
Através da troca com Sue, e mais precisamente com Thao, que Walt se vê ainda como ser humano, como um tipo de alteridade tardia ou nostálgica, através do olhar desses dois jovens, Walt se vê obrigado a enfrentar sua existência tal qual ela se apresenta no presente. Desafia-se a estimular a última faísca de vida que lhe resta de um passado de dor e arrependimento.
Talvez por isso insista tanto em ensinar um ofício a Thao, jovem tímido e inexperiente, que vive sendo perturbado por seu primo e sua gangue. Walt, dá as ferramentas para que o jovem construa um mundo novo, um mundo onde Thao e sua família possam viver em paz, cultivando o pouco de identidade e verdade que faz dos EUA da era Obama, um país multicultural, que respeita e exalta as diferenças.
Como num túnel do tempo, Walt desejava poder, através de seu Gran Torino, 1972, voltar ao tempo em que podia simplesmente deslizar pelas estradas a beira-mar, sentindo a briza no rosto, com a segurança que o Estado lhe dá, e a constatação tardia da beleza que aqueles instantes proporcionavam. Drama, 117 min. Baixe esse filme.
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Adriano Vilas Bôas escreve para o site Figurama.

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