As Pontes de Madison

.
Por Rodrigo Carreiro
.
Histórias de amor são quase sempre recebidas com reticência pela turma dos cinéfilos, especialmente se filmadas em Hollywood, por causa da grande quantidade de açúcar que os diretores costumam agregar à receita. Há realmente poucos, bem poucos longas metragens que abordam o assunto de maneira madura e sensível. “As Pontes de Madison” (The Bridges of Madison County, EUA, 1995) está entre esses filmes. Talvez não seja a melhor obra filmada pelo cineasta veterano, mas está no páreo deste troféu imaginário, por ser um dos romances mais tocantes e melancólicos jamais levados à tela grande.
O filme tem todas as principais características das obras do Eastwood na sua melhor fase: técnica refinada que jamais chama a atenção para si (repare na belíssima fotografia das paisagens rurais do condado de Madison, no Iowa, e na seqüência primorosa do jantar à luz de velas, próxima do final do filme), grandes atuações cheias de sutilezas dos atores nos papéis centrais e roteiro perfeito (de Richard LaGravenese), com diálogos de simplicidade cativante que, no entanto, revelam uma compreensão profunda do desejo, da culpa e da paixão de cada componente do casal.
Para começar, “As Pontes de Madison” é uma raridade devido a uma peculiaridade: a seqüência de abertura revela todo o filme, inclusive o final, já que é narrada em flashback. O filme abre nos dias atuais. Michael (Victor Slezak) e Carolyn (Annie Corley) estão reunidos para serem comunicados do testamento da mãe. Ao receberem os objetos pessoais da mulher, descobrem cartas de um suposto amante. Chocados, os dois vasculham os objetos e acabam encontrando a chave de um baú. Dentro, três cadernos que narram em minúcias a aventura romântica de quatro dias vivida por Francesca (Meryl Streep) com um fotógrafo da revista National Geographic, Robert Kincaid (Clint Eastwood). O fato tinha ocorrido em 1962, pouco mais de 30 anos antes.
Francesca, uma italiana de Bari que conheceu o marido Richard na guerra e devotou duas décadas de sua vida ao sujeito desligado e pouco carinhoso, está sozinha na fazenda dos Johnson. Richard e os dois filhos foram passar quatro dias em uma feira rural. Logo no primeiro dia, o fotógrafo aparece na estrada. Está perdido, e pede informações sobre como chegar a uma famosa ponte bucólica da cidade. Ela tenta explicar o caminho, ele não entende, e ela se oferece para ir junto. Afinal, não tem nada o que fazer durante o dia. Bastam alguns minutos de conversa, dentro do carro, para que Francesa, Robert e a platéia entrem em um estado de empatia quase mediúnica.
Ao optar por revelar ao leitor o final da história, já que sabemos que Francesca viveu com a família a vida inteira e escondeu tão bem o caso que ninguém jamais desconfiou de nada, Clint Eastwood toma uma decisão arriscada. Muita gente costuma mostrar desinteresse por filmes cuja trama é previamente conhecida. Não os cinéfilos de verdade. O filme é deles, e explica com uma narrativa concisa e tocante como duas pessoas podem ter se amado ardentemente, durante 30 anos, e permanecido separadas. O filme responde a essa questão com absoluta perfeição. Não há nenhuma nota fora do lugar. Nenhuma.
Esta é uma história de atores. Meryl Streep, conhecida pela perfeição nos sotaques, entrega aqui uma das interpretações mais complexas e vitoriosas da carreira. Não são apenas as palavras – é algo mais profundo, algo que poucos atores conseguem transmitir, com olhares, sorrisos e pequenos gestos. Há uma cena que serve como epítome da atuação de Streep, uma cena que acontece depois que ela já está irremediavelmente fisgada por Robert. Ele está de saída quando o telefone toca. É o marido de Francesca. Ela atende e conversa com ele, expressando com a voz alegria e saudade da família, enquanto olha a caminhonete de Robert se afastando e chora por dentro. Que cena linda.
A rigor, Meryl Streep é a dona do filme. O filme é narrado do ponto de vista de Francesca (claro, afinal é o diário dela que fornece a base narrativa). Robert, que é um mistério fascinante para Francesca, também o é aos olhos da platéia. Clint Eastwood se aproveita disso. Ele é um bom ator, embora não genial; ao lado de Meryl Streep, sua espontaneidade funciona à perfeição. Além disso, o personagem é o que se chama de reagente. Ele nunca toma a iniciativa, apenas espera pela ação de Francesca. Robert é um homem experiente, calejado. Quando percebe a atração mútua, avisa a Francesca para ter cuidado (“Talvez o encontro de hoje à noite não seja uma boa idéia”, diz ele, em certo momento, temendo a reação da cidade se descobrir a infidelidade da mulher). Robert nunca toma a iniciativa. Como ator, essa é a situação perfeita para Eastwood – deixar que Streep conduza o filme.
Ela o faz. A partir de Francesca, os amantes percorrem, em quatro dias, o arco completo de uma relação amorosa: empatia, atração, ansiedade, desejo, paixão, felicidade, angústia, desconfiança; sonho e realidade. Em outra cena, também ao telefone, ocorre o primeiro contato físico entre Francesca e Robert; enquanto fala, ela dá a volta na mesa, se posiciona atrás dele, e delicadamente ajeita a gola da camisa, tocando o pescoço e deixando a mão ficar parado por um instante, antes de seguir. A atuação de Meryl Streep complementa aquilo que as palavras – que são muitas, carregadas de humor sutil e excitação – não conseguem, sozinhas, dizer.
Há algo de “Casablanca” em “As Pontes de Madison”: o tema do sacrifício, que ressoa no final dos dois filmes e, aqui, é ainda mais emocionante. A linda seqüência que encerra o filme, a cena da despedida de Francesca e Robert, funciona em vários planos. É simbólica, pois envolve um crucifíxo que desempenha papel crucial, e não existe melhor símbolo de sacrifício do que uma cruz; é metafórica, pois acontece sob chuva, como se alguma divindade derramasse um rio de lágrimas pela impossibilidade de concretização de um amor tão puro e fulgurante; e é literal, quando a mão de Francesca agarra com força a maçaneta fria de metal do carro. Tome muito cuidado para não chorar.
Algumas pessoas podem se perguntar porque, sendo tão romântico e emocionante, “As Pontes de Madison” não cativou o público da mesma maneira que, por exemplo, o já citado “Casablanca”, alçado à categoria de mito cinematográfico. A resposta é simples: o filme de Clint Eastwood mostra um improvável romance de duas pessoas na meia idade, uma idade em que o público, domesticado pela indigência habitual de Hollywood, imagina que as pessoas já estejam anestesiadas em alguma espécie de menopausa coletiva. Há até aqueles que vêem no filme algum tipo de indecência, e o condenam arbitrariamente, como se amar, se apaixonar e compartilhar de momentos felizes fosse proibido àqueles com mais de 50 anos. Pobres coitados. Não sabem o que estão perdendo.
Drama/Romance, 135 min. Baixe esse filme.
.
.
Rodrigo Carreiro mantém o site Cine Repórter.
.

Tags:, ,

One response to “As Pontes de Madison”

  1. Cristiane Gomes says :

    As pontes de Madison é um filme maravilhoso e encantador. É mais do que uma história de amor. Eu assisti há uma semana, embora o filme seja já antigo. Recomendo enfaticamente, é arrebatador. Muito boa resenha, parabéns pelo blog.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: