Cartas de Iwo Jima

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Por Rodrigo Cardia
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Cartas de Iwo Jima é o complemento de A Conquista da Honra, ambos lançados em 2006. Clint Eastwood decidiu abordar a Batalha de Iwo Jima, em 1945, meses antes do fim da Segunda Guerra Mundial, sob os ângulos de cada lado envolvido na disputa, e assim produziu dois filmes: A Conquista da Honra nos apresenta a visão estadunidense, enquanto Cartas de Iwo Jima nos mostra o ponto de vista japonês sobre o episódio.
O filme se inicia com uma expedição arqueológica à ilha de Iwo Jima, em 2005. Os pesquisadores descobrem, em uma caverna, diversas cartas enterradas, escritas pelos soldados japoneses 60 anos antes e que jamais chegaram a seus destinos. A partir delas, é contada a história mostrada pelo filme – assim, Cartas de Iwo Jima também é uma aula de como se faz História: afinal, é com base em documentos, em vestígios deixados pelas pessoas que viveram no passado, que os historiadores o estudam e explicam o que aconteceu.
Além disso, as cartas também são fundamentais para explicar o porquê de alguns personagens cruciais na história estarem presentes na ilha, e também o que eles viveram antes de serem mandados ao campo de batalha – o que explica muitas de suas atitudes durante o desenrolar do filme. Assim, eles são mostrados não como simples soldados a serviço do Imperador Hiroito (ou Hirohito), mas também como seres humanos, que tinham suas famílias, suas “vidas normais”, das quais foram afastados pela guerra. Como Saigo (Kazunari Ninomiya), que teve de deixar a esposa grávida: esta foi parabenizada pelas vizinhas por seu marido “ter a honra de servir o país”, assim como o próprio disse no momento em que recebeu a convocação. Afinal, defender o Japão e o Imperador, inclusive com o sacrifício da própria vida, devia ser visto desta forma: como a missão mais honrosa que qualquer japonês poderia cumprir.
A experiência do tenente-general Tadamichi Kuribayashi (Ken Watanabe), que antes da guerra estudou nos Estados Unidos e foi enviado a Iwo Jima por “ter conhecimento do inimigo”, faz com que ele questione muito alguns valores tradicionais da cultura japonesa, como o suicídio pela honra: para ele, mais vale um soldado se retirar de um combate praticamente perdido e manter a vida (para que possa continuar lutando em outra frente) do que perdê-lo “mas manter a honra”. Some-se a isso o fato de que Kuribayashi vive um “conflito interno”: por ter feito muitos amigos nos EUA, não vê o país como “inimigo”, mas apenas como adversário, cujos soldados também têm suas histórias de vida, suas famílias, como os japoneses. Assim, muitos de seus comandados acabam vendo-o com desconfiança, por serem imbuídos de uma visão de mundo que ligava “patriotismo” a “dar a vida pelo Imperador”, “jamais se entregar” (ainda mais que realmente a opção de se render nem sempre é a melhor) e não ter qualquer consideração pelo inimigo.
Aliás, quanto ao “patriotismo”, o filme também demonstra como o nacionalismo exacerbado serve, em qualquer país, aos que detém o poder: qualquer ordem não-cumprida é vista como “falta de patriotismo”, ainda mais em tempos de guerra. Que o diga o soldado enviado a Iwo Jima por “insubordinação”, que no caso dele foi não ter matado um cão que latia à noite, em consideração às crianças que tanto gostavam dele e não entendiam que os latidos eram “anti-patrióticos”.
Cartas de Iwo Jima, definitivamente, é um filme que merece muito ser visto. Tanto por nos fazer adentrar no dia a dia dos que combatiam em uma inóspita ilha, e por mostrar como a guerra é terrível, triste, e destroi vidas não apenas nos campos de batalha, como também dos entes queridos que não chegam a pegar em armas. Tudo bem, um filme que mostre isso não é nenhuma novidade, mas se levarmos em conta que os homens seguem se matando por motivos estúpidos, nunca é demais. Drama, 140 min. Baixe esse filme.
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  1. Pipoca Comentada « Cão Uivador - 02/07/2010
  2. Pipoca Comentada | Cão Uivador - 21/05/2012

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