Whisky

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Durante quase cinco minutos, nenhuma palavra é pronunciada no filme uruguaio “Whisky” (Uruguai/Argentina, 2003). Alternadas com os créditos, apenas longas tomadas de um homem dirigindo um carro, em cenas filmadas de dentro do veículo. Nenhuma música, nenhum diálogo. É uma abertura sintomática e perfeita para um filme em que nada parece acontecer. A proposta dos jovens cineastas Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll é filmar a rotina. O resultado é um filme delicado, de simplicidade franciscana, que foge do melodrama como o diabo da cruz, e persegue obsessivamente um registro minimalista da banalidade do cotidiano.
É preciso registrar a coragem da dupla de diretores, que haviam feito apenas um longa-metragem antes, para transformar duas pessoas de meia-idade em protagonistas. “Whisky” não seria possível em Hollywood, onde pessoas com mais de 45 anos têm que se contentar com papéis de coadjuvantes. A opção estética dos dois para registrar as vidas banais de Jacobo (Andrés Pazos) e Marta (Mirella Pascual) é adequada. Quase nenhuma música, diálogos raros, câmera estática, longas tomadas silenciosas. A vida como ela é, para quem tem mais de 60 anos. Perfeito.
Jacobo possui uma minúscula fábrica de meias em Montevidéu, capital uruguaia. Marta chefia a produção, entregue a duas funcionárias mais jovens. Uma convivência de muitos anos, calcada em gratidão de parte a parte, e palavras não ditas. A rotina é sempre a mesma: Marta espera o patrão em frente ao portão de metal da fábrica, cuida dos detalhes da produção. Saem juntos à noite, cada um para um lado. Nenhuma intimidade. Fora do ambiente de trabalho, eles não existem. A rigor, não vivem; perambulam pela vida como dois fantasmas.
O elemento que abala as duas pacíficas existências chama-se Herman (Jorge Bolani), o irmão de Jacobo, que vive no Brasil e anuncia que vai passar alguns dias na casa do parente, por ocasião das cerimônias de passagem do aniversário da morte da mãe judia. Acontece que Jacobo tem vergonha da própria solidão e, por isso, pede a Marta que se passe por esposa dele durante a temporada do irmão no Uruguai. O resultado é que a convivência dos três vai, inevitavelmente, provocar mudanças nas existências que cada um deles levará dali para diante.
“Whisky” não é um drama convencional. Possui humor, mas uma espécie muito peculiar e sutil de humor. Ninguém vai gargalhar assistindo ao filme. Ao contrário do que o nome indica, também não tem toneladas de álcool – “Whisky” é a versão uruguaia para a expressão “cheese”, que a gente fala no Brasil (nos EUA também) para simular um sorriso na hora de tirar uma fotografia. A proposta dos cineastas consiste em acompanhar os três personagens a meia distância, sem invadir a intimidade de ninguém, mas com olho especial para as nuances, as mudanças no jeito de ser de cada um, a partir do contato pessoal. São conversas, encontros, pequenas descobertas que exercem mudanças aparentemente insignificantes, mas cruciais, nos personagens, todos construídos com detalhes saborosos.
Observe, por exemplo, a maneira carinhosa como Marta sempre se dirige ao patrão, mostrando preocupação com a persiana quebrada e levando uma xícara de chá sem que ele precise pedir. Não é amor, nem mesmo interesse, mas o jeito dela de demonstrar que gosta dele, que se importa com ele. Jacobo é mais um sujeito tomado pela inércia do que mal-humorado, embora a aparição de Herman, convenientemente “abrasileirado” (ele cumprimenta os outros com beijos e abraços, e não com frios apertos de mão), vá acentuar esse caráter irascível do irmão.
Como todo bom estudo de personagens, “Whisky” depende dos atores para funcionar, e eles correspondem na medida certa. Todos têm rostos comuns e entregam interpretações naturalistas, tímidas, tranqüilas e sem um pouco teatrais. A barba e o ar alheio de Andrés Pazos lhes dão o ar reservado fundamental para tornar Jacobo alguém de carne e osso. Jorge Bolani utiliza o figurino – casacos de couro preto – para ressaltar o caráter mais expansivo e alegre. Mas o filme é de Mirella Pascual. Tímida, hesitante, de olhos baixos, ela dá show quando é Marta quem está interpretando, pois não consegue se livrar da postura de empregada quando a situação pede. Ajuda, também, o fato de que é dela o personagem submetido a um arco dramático de maior intensidade.
Vencedor de três troféus em Gramado e indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2004, “Whisky” é um raro filme uruguaio a aportar em terras brasileiras. Como documento de uma cultura estrangeira, mostra-se excelente. O retrato que emerge do Uruguai é de um país triste, decadente, habitado por gente velha, o que bate com a realidade – grande parte da população jovem do Uruguai migra para a Argentina e países vizinhos, como Herman fez na juventude, em busca de trabalho. Seu único senão é o ar de falsa espontaneidade construída pelo roteiro, destruída pela edição meticulosa (em excesso) que enfatiza as repetições dos eventos no cotidiano de Jacobo e Marta. Mesmo assim, é um belo filme. Drama, 95 min. Baixe esse filme.
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