Memórias do Subdesenvolvimento

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Mais que um filme, “Memórias do subdesenvolvimento” é quase uma crônica sobre a realidade de Cuba pós-Revolução e também sobre como um outrora membro da burguesia se ajusta a este novo mundo. Misturando com competência as linguagens de documentário e ficção, e acrescentando toques neorealistas e da Nouvelle Vague, Tomás Gutiérrez Alea dirige um filme original e autoral como poucos, que cresce a cada vez que se assiste.
Sergio Corrieri interpreta o personagem e o narrador central, norteando uma história em que um homem, de forma passiva, assiste a todas as mudanças e se sente a cada dia mais desanimado. Sua família toda tenta a vida nos EUA, mas ele permanece, em busca de um tempo perdido. O país não tem mais nada a ver com ele, e vice-versa. Mas ele não luta contra isso, apenas assiste a tudo resignado, nem sendo um outsider nem se adaptando de verdade à nova conjuntura. Ele tece uma visão crítica da revolução e do país (do tipo que jamais imaginaríamos ver em um filme soviético da época, por exemplo), mas não propõe soluções, ainda preso a um ideal europeu de vida que, no íntimo, sabe que não tem nada a ver com aquele povo tropical a que tenta ao máximo não pertencer.
O filme se divide bastante entre este relato na primeira pessoa de sua solitária vida em Havana (junto com algumas reminiscências de sua infância e adolescência, em que poderia ter tomado decisões que com certeza teriam mudado bastante a sua vida) com cenas documentais e fotografias de Cuba nos anos 60. Deve-se ressaltar que é fundamental que o espectador esteja minimamente familiarizado com este período histórico, para poder entender melhor o espírito da coisa…
Não chega a ser um filme difícil, mas também não é acessível a todos. A mudança constante na narrativa, assim como de linguagens e planos, desnorteia um pouco o espectador, tão acostumado a um cinema mais “certinho”, onde se entra no filme já sabendo mais ou menos o que se vai receber em troca. Igualmente, é um filme bastante reflexivo e pouco narrativo, o que por vezes é um pouco cansativo, mas no final das contas é muito recompensador. É daqueles filmes que praticamente exigem que o assistamos mais de uma vez, para podermos entender todas as suas nuances provenientes da rica direção de Alea.
“Memórias do subdesenvolvimento” é um claro retrato de sua época, não só por retratá-la com eficiência e espírito crítico, mas também por representar um cinema ousado, instigante, experimental e autoral, como era comum, em alguns círculos, nos anos 60. Tomás Gutiérrez Alea executou um trabalho de mestre nesse filme, finalmente disponível em DVD no Brasil. Diga-se de passagem, no DVD* tem uma faixa comentada de Walter Salles, Eduardo Coutinho e Nelson Pereira dos Santos que torna o filme ainda mais imperdível, fazendo a experiência ser uma dupla aula de cinema. Drama, 97 minBaixe esse filme
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Trecho do filme:
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* É essa versão do DVD que está disponível no link torrent para baixar

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2 responses to “Memórias do Subdesenvolvimento”

  1. Bruno says :

    Adoro seu blog!sempre estou por aqui! =]

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