Um papo sobre cinema com José de Abreu

A primeira entrevista do Pipoca Comentada é na verdade um papo com o ator José de Abreu sobre cinema, trajetória e projetos. Nascido no interior paulista, em Santa Rita do Passa Quatro, Zé – como é chamado pelos amigos –, 64 anos, 4 filhos, tem mais de 40 anos de profissão e diz que foi aceitando tudo de bom que foi acontecendo na sua carreira, iniciada no Teatro da Universidade Católica de São Paulo (TUCA). Estudante de Direito, militou contra a ditadura na Ação Popular e VAR-Palmares, foi preso no Congresso da UNE de Ibiúna, esteve exilado na Europa e quando voltou ao Brasil em 1974, recomeçou a vida em Pelotas, no Rio Grande do Sul, onde era professor universitário. Em Porto Alegre, retomou a carreira de ator no teatro com uma montagem de Os Saltimbancos, de Chico Buarque. Suas atuações no cinema gaúcho o levaram ao Rio de Janeiro e à TV Globo, onde está há 29 anos. Confira a nossa conversa, que rolou via skype, entre uma tuitada e outra, numa tarde dessas aí pela web.

Por Niara de Oliveira.

Quem é José de Abreu?
Um caipira paulista que por causa da ditadura virou gaúcho. Um estudante de direito que por causa da ditadura virou ator.
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Como vês a tua trajetória de ator? Seguiste os rumos que querias?
Na real nunca tracei realmente “rumos”. Tudo foi acontecendo e eu aceitando porque era bom. Tem um dito indiano que sigo, que diz: “O homem sábio é como um rio que segue seu caminho rumo ao mar. Quando as margens se alargam ele se espraia. Quando as margens se estreitam, ele se aprofunda e passa, e segue inexorável seu caminho rumo ao mar”. Li isto na noite anterior à minha saída de São Paulo, rumo a Porto Alegre.
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Onde encontraste o cinema? Lembras do primeiro contato?
Sim, foi meu primeiro cachê. Anuska, Manequim e Mulher – filme de Ramalho Junior. Eu tinha uma cena com o Francisco Cuoco, que era o maior galã da época, eu dava um soco na cara dele. Um dos produtores era do TUCA (Teatro da Universidade Católica) de São Paulo e eu também era. Ele me convidou. Isso em 1967.
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Tu tens todos os personagens e projetos na memória, lembra de tudo?
Sim. Com internet do lado. [risos] Sou “interneteiro” desde 1994. Antes tinha BBS.
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A maioria das críticas sobre o cinema brasileiro é negativa. Nunca somos bons o suficiente para alguns. Como é pra ti? Qual tua leitura do cinema nacional, independente (ou não) das fases e períodos.
Eu sempre achei que o problema principal é roteiro. Teve uma época que todo diretor fazia seu próprio roteiro, queriam um cinema mais autoral. Mas isso não é bom para a indústria. Um diretor tem trabalho suficiente num filme para somar como roteirista. De qualquer forma, ele vai atuar como co-roteirista na medida em que ele DIRIGE o filme. Hoje já se divide mais, temos roteiristas muito bons, profissionais mesmo, mas essa profissão exige prática e isso leva tempo.
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Carência de boas histórias?
Temos histórias muito boas, a história do país é muito trágica. A do sul então…, é guerra após guerra, e isso é sempre muito dramático. Bons diretores e atores, temos. Técnicos bons, temos.
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Esse caminho das parcerias com os grandes produtores mundiais tomado pelo Fernando Meirelles, Walter Salles e agora outros… Era inevitável? Não deixa todos os cinemas meio iguais?
Acho que a pluralidade é necessária. Temos que fazer todos os tipos de filme, desde o mais barato e autoral, até os blockbusters com as majors americanas, passando por Xuxa e Trapalhões. Creio que no Brasil, por termos tido uma educação européia até a ditadura, vemos sempre o cinema como arte e não indústria. É um caminho, mas como o mundo ficou muito capitalista, a realidade é que o cinema europeu ficou muito limitado. É preciso ter um cinema forte comercialmente para que o filme de arte possa também acontecer.
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Estás envolvido em algum projeto agora ou só na tevê?
Estou com uma produção chamada ONDE PORCOS COMEM LARANJAS, sobre a imigração judaica no Rio Grande do Sul. Ainda captando, devo rodar em mais um ano. Roteiro de Melanie Dimantas (Carlota) e Marcos Bernstein (Central do Brasil). Vou dirigir, vai ser filmado em Santa Maria. Outra idéia é roteirizar a Guerra das Missões, um sonho antigo, Pedro Missioneiro e Sepé Tiarajú. Todos projetos caros… Vou fazer uma peça de teatro no final do ano.
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Tens participado de festivais?
Estive no Festival de Gramado em agosto, mas sem filme. No ano passado participei com dois filmes, ambos gaúchos.
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No caso desses projetos caros, como faz? Existem bons patrocinadores no Brasil?
[risos] Não, a gente fica anos captando. É sempre muito difícil. Corta o orçamento, fecha o plano, usa natureza, bota o navio no áudio, essas coisas. Estou com umas idéias bem malucas para resolver uma viagem de navio da Alemanha para Rio Grande, como se fosse um sonho do protagonista, usando quadros do Lasar Segall sobre essas viagens dos judeus para cá no início do século XX. Computação gráfica…, tem que achar uma maneira…
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[rindo aqui]
[chorando aqui]
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O que achaste da indicação de “Lula, O Filho do Brasil” como representante brasileiro no Oscar?
Acho que foi por causa do nome do Lula e do fato do diretor (Fábio Barreto) já ter concorrido com O QUATRILHO; e certamente ter sido seu último filme, já que está em coma há meses.
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Para finalizar, indica um filme em que tenhas atuado para os leitores do Pipoca assistirem e um outro, do qual tenhas gostado recentemente.
Sem dúvida A INTRUSA, dirigido por Carlos Hugo Christensen, baseado num conto de Jorge Luis Borges com música de Astor Piazzolla. Rodado em Uruguaiana em 80. Lindo, cult total. Gostei muito do Gran Torino. Taí, acho que esse ATOR consegue fazer um cinema de sucesso e cabeça… E tem o dos Cohen, A Serious Man.

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Nota: Infelizmente não conseguimos ainda o link torrent de A Intrusa para disponibilizar aos leitores. Atualmente existem apenas algumas cópias VHS na mão de colecionadores. Se alguém tiver uma cópia, por favor, entre em contato.

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One response to “Um papo sobre cinema com José de Abreu”

  1. M@h....! says :

    Niara!
    …….estou torcendo p/ q sonhos de protagonistas tornem-se reais….afinal cidadãos pelotenses com orgulho e alma gaúcha sempre conquistaram o público…
    PORCOS COMEM LARANJAS sem duvida irá mostrar a saga desse povo tão discriminado…..Boa sorte José de Abreu!
    Bjs!
    M@g…!

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