Che

Che, O Argentino

Por Pablo Villaça

Que diferença enorme fazem meio século e a perspectiva oferecida pelo distanciamento histórico: se em 1969 o diretor Richard Fleischer comandou o repulsivo Che!, que trazia Omar Shariff (que depois renegou o filme) como Guevara numa produção politicamente míope (pior: cega), foi somente em 2008, 50 anos após a Revolução Cubana, que o cineasta norte-americano Steven Soderbergh conseguiu levar Hollywood a produzir um longa que retratasse não apenas a importância histórica da derrubada de Fulgêncio Batista, mas também que fizesse jus ao espírito revolucionário de uma das figuras mais emblemáticas do século 20: Ernesto Guevara Serna, o “Che”. (O maravilhoso Diários de Motocicleta não conta, já que aborda a juventude pré-revolucionária do personagem e é uma produção internacional comandada por um brasileiro.) Pode não parecer, mas é realmente significativo que vivamos numa época em que um cineasta do mainstream norte-americano tenha a coragem e a possibilidade de usar seu peso na indústria de Hollywood para realizar uma cinebiografia que, longe de condenar o espírito da Revolução Cubana, ainda retrata Fidel e Che como figuras dignas que tiveram a coragem de lutar por Cuba num período em que os Estados Unidos já interferiam pesadamente nas políticas internas de todas as nações da América Latina. Intercalando as ações dos revolucionários na Sierra Maestra com a célebre visita de Che a Nova York para discursar na ONU, O Argentino, primeira parte do épico Che, exibe uma autenticidade impressionante não só pela decisão acertada de empregar o espanhol como língua dominante (em vez do “inglês com sotaque” que Hollywood costuma adotar), mas também pelo excelente uso das locações e a abordagem direta, objetiva, de Soderbergh, que só adota um estilo diferenciadamente marcante nas seqüências em Nova York, que são rodadas num preto-e-branco granulado que assume, assim, um caráter documental, de imagens de arquivo. Sem também cometer o erro de usar a guerrilha nas montanhas como desculpa para conferir um caráter de “longa de ação” ao projeto, O Argentino é basicamente um filme de idéias políticas: desde o histórico primeiro encontro entre Fidel e Che até o plano final, esta produção se preocupa em estabelecer o protagonista como um homem de princípios, como alguém que não se interessa pela luta armada por ter uma personalidade violenta ou por gostar de adrenalina, mas sim por amar profundamente os camponeses que sofrem sob o jugo imperialista que, no período pós-Guerra, caracterizou a principal estratégia econômica norte-americana na América Latina. Sem fugir das questões mais controversas (como o fato de Che ter “justiçado” desertores na Sierra Maestra), O Argentino impressiona também graças às magníficas interpretações de seu magistral elenco: como o personagem-título, Benicio Del Toro mais uma vez se estabelece como um ator visceral, ao passo que Demián Bichir não só se parece muito com o jovem Fidel como ainda resgata perfeitamente os trejeitos e maneirismos do líder revolucionário. Enquanto isso, Rodrigo Santoro vem demonstrando humildade e inteligência ao aceitar papéis menores em produções internacionais (ver também Leonera), já que seus ótimos desempenhos nestes ótimos projetos certamente farão mais por sua carreira do que atuações maiores em filmes medíocres poderiam fazer. Rodado com a câmera Red One, Che comprova que a diferença entre a película e o digital, especialmente com um bom trabalho de pós-produção, já é inexistente (a Red One alcança os 4K similares ao filme convencional) – e, assim, até mesmo em seu aspecto tecnológico o longa se revela um dos mais importantes de 2008. Drama, 134 min. Baixe esse filme.

Che, A Guerrilha

Por Jean Garnier

Depois de se juntar a Fidel e Raul Castro e derrubar o presidente cubano, Fulgencio Batista, Ernesto Guevara de la Serna retorna de uma frustrada tentativa de fazer o mesmo no Congo. O ex-médico argentino parte então para a Bolívia, querendo levar o espírito da revolução cubana para a América do Sul, uma terra arrasada por períodos de ditadura. Esse é o pano de fundo de Che – A Guerrilha (estreia hoje), sequência de O Argentino.O ator porto-riquenho Benício Del Toro (um dos produtores do longa) encarna novamente Che, que em 1964 fez discurso nas Nações Unidas, no qual afirmou o compromisso de lutar contra o imperialismo norte-americano. Através de uma carta, lida por Fidel, se despediu de Cuba, abrindo mão dos cargos administrativos que tinha na ilha, juntamente com seus luxos e vantagens, deixando claro que outros países precisavam de sua ajuda. Clandestinamente, chega à Bolívia, com passaporte falso e o nome de Ramon, recruta guerrilheiros e começa a tramar um plano para a derrubada do governo corrupto local, e o que começa aí o relato do que aconteceu nos 341 dias de uma campanha frustrada. Se no primeiro filme tudo se arrasta para a vitória, nesse acontece exatamente o oposto e tudo funciona (parece ser proposital, um complô. Sugestão: tudo volta-se, ou vira-se) contra ele. A dificuldade se dá por vários motivos, como o desconhecimento do terreno, a recusa de apoio do partido comunista boliviano e a desconfiança dos camponeses da região – ninguém do grupo de Che falava a língua indígena local. A imagem que se tem de Che no final é a de um homem cansado, doente (malária) e sofrendo com a asma. O resto é a história: ele é capturado em 8 de outubro de 1967 e executado no dia seguinte. A atuação de Benício é surpreendente, devido à sua força. Há participações em pequenas pontas de Matt Damon, Lou Diamond Phillips (o Ritchie Valenz de La Bamba), Catalina Sandino Moreno (Maria Cheia de Graça) e Rodrigo Santoro (rápida aparição como Raul Castro). O restante do elenco é praticamente desconhecido. Não há como negar que Che é uma das grandes figuras do século passado, até a revista Time o elegeu como uma das 100 maiores personalidades mundiais. A maioria das pessoas o idolatra como um ícone da liberdade, e há uma minoria que acredita que ele não passou de um louco assassino. O diretor Steven Soderbergh preferiu não comprar a polêmica, e apenas segue com clareza um roteiro baseado nos diários do próprio guerrilheiro, mostrando que o seu não é um filme de guerra, apenas a história de um homem determinado em busca de seus ideais. Drama, 131 min. Baixe esse filme.
.

.

Tags:, , , ,

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: