Rashomon

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Por Rodrigo Carreiro
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Seria preciso retornar ao princípio dos anos 1950 para compreender a extensão do terremoto que “Rashomon” (Japão, 1950), primeira obra-prima de Akira Kurosawa, causou na indústria cinematográfica. O filme não apenas apresentou ao mundo o cinema do Japão, mas também trouxe inúmeras inovações técnicas e narrativas, gerando uma onda avassaladora de admiração pelas proezas conseguidas pelo cineasta oriental. O que temos aqui é um daqueles filmes-chave que, de tempos em tempos, impulsiona a linguagem cinematográfica para um novo patamar. Neste sentido, “Rashomon” se alinha a “O Nascimento de uma Nação” (1915), “Cidadão Kane” (1941) e algumas poucas obras fundamentais.
Título que a maioria dos cinéfilos conhece apenas pelo nome, “Rashomon” é um thriller de mistério simples na aparência, mas ambicioso tanto no aspecto visual quanto na narrativa. Antecipando em quatro décadas uma tendência de diretores estetas como Quentin Tarantino, Kurosawa constrói uma trama que conta a mesma história sob quatro pontos de vista diferentes, nenhum deles conclusivo. A técnica, então inédita, acabaria por influenciar muitos grandes cineastas do futuro, gerando dezenas de variações (“Os Suspeitos” de Bryan Singer, “Jackie Brown” de Quentin Tarantino, “Herói” de Zhang Yimou).
Embora fosse um ilustre desconhecido no Ocidente, ao assumir o projeto de “Rashomon”, Kurosawa já era um diretor importante no Japão, com dez anos de carreira e quase 20 filmes lançados. Ao contrário do que muita gente (que não conhece o filme) pensa, “Rashomon” passa longe do tipo de cinema épico, suntuoso e reflexivo que o cineasta desenvolveria nos anos seguintes. Aqui, pelo contrário, a narrativa é ágil e cheia de humor feroz, nitidamente influenciada por John Ford – especialmente nas cuidadosas e surpreendentes composições visuais – e pelos faroestes clássicos norte-americanos.
No plano narrativo, o longa-metragem consegue a proeza de ser simples e ambicioso ao mesmo tempo. Na aparência é bastante simples porque vai direto ao cerne da história: três homens se encontram nas ruínas de uma antiga construção medieval, durante uma pesada tempestade, e conversam para matar o tempo. Dois deles contam ao terceiro o caso extraordinário de um julgamento que acabaram de presenciar. Nele, quatro pessoas forneceram diferentes versões para o mesmo acontecimento – o assassinato de um homem no meio de uma floresta – sem que fosse possível reconhecer qual das versões era a verdadeira (se é que alguma delas era). Está aí o tema do filme: a verdade é sempre algo subjetivo e impossível de atingir, e os seres humanos têm uma tendência natural para florear o próprio papel nos acontecimentos.
A estrutura narrativa elaborada por Kurosawa se revela bastante ambiciosa quando observada com atenção. De fato, as ações são contadas em três tempos distintos, algo raro no cinema – os fatos mais importantes são flashbacks dentro de flashbacks. Há o presente (a espera pela chuva passar, com a conversa entre os três homens), o passado recente (o julgamento do bandido acusado pelo crime, em um pátio banhado de sol) e o passado distante (o assassinato na selva). Apesar de alternar os três tempos, a narrativa jamais fica confusa ou empolada por causa disso. O ritmo é ágil e as cenas, bastante dinâmicas.
“Rashomon” também chamou bastante a atenção, nos anos 1950, pelas extraordinárias composições visuais organizadas pela câmera de Kurosawa. Claramente fascinado pela profundidade de foco – recurso que John Ford adorava e Orson Welles tornara tremendamente popular após “Cidadão Kane” –, o cineasta japonês se esmerou para criar inúmeras seqüências com duas ações ocorrendo simultaneamente, uma em primeiro e outra em segundo plano. As seqüências de luta, filmadas em longas tomadas sem cortes, são bastante realistas para a época em que foram filmadas; nelas, os lutadores correm, pulam, ficam esbaforidos, tomam fôlego e voltam a lutar.
O cuidado com o visual foi tanto que Kurosawa chegou a tingir de preto a água utilizada nas cenas de chuva, para dar a impressão de uma tempestade realmente violenta. A chuva inclusive é um elemento narrativo importante, pois providencia para o espectador uma forma instantânea de saber a qual dos três tempos narrativos pertence cada nova cena. Além disso, a fotografia de Kazuo Miyagawa impressionou muita gente por quebrar um paradigma que já durava meio século no cinema: pela primeira vez na história, a câmera enfoca diretamente o sol (as tomadas amplas, que mostram o céu pesado e impassível pairando sobre os personagens como um deus tomado de fúria, se tornariam fundamentais na filmografia de Kurosawa).
Visto atualmente, “Rashomon” pode provocar alguma estranheza pelo caráter teatral e exagerado das atuações, bem longe do naturalismo que o cinema contemporâneo costuma perseguir. Preste atenção, por exemplo, na risada maníaca e na expressão corporal de Toshiro Mifune, que interpreta o bandido Tajomaru – ele foi instruído pelo diretor para se mover como um felino. Apesar da sensação de estranhamento, as atuações funcionam muito bem dentro do mundo fabular do filme. O maior destaque é Fumiko Honma, que protagoniza uma seqüência assustadora como uma diabólica médium. No todo, o que temos aqui é uma grande aula de cinema. Drama, 88 min. Baixe esse filme.
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  1. Resenha – Rashomon (1950) « Wear Sunglasses - 17/11/2011

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