Adeus, Lênin!

Por Rodrigo Cardia

O processo que levou à reunificação alemã foi extremamente rápido: as mudanças se deram em menos de um ano, motivadas pelos protestos populares na Alemanha Oriental, como também pela própria política da União Soviética, de não mais intervir nos países do Leste Europeu, estimulando-os a adotarem reformas semelhantes às que Mikhail Gorbachev aplicava na URSS (glasnost e perestroika). Em 18 de outubro de 1989, o linha-dura Erich Honecker renunciou à liderança do governante Partido Comunista, e em 9 de novembro, foi liberado o trânsito entre as duas Alemanhas, tornando a fronteira interalemã mera formalidade. Quatro meses após a abertura do muro foram realizadas as primeiras eleições multipartidárias – ou seja, em que não era apenas o Partido Comunista que participava – na República Democrática Alemã (nome oficial da Alemanha Oriental) e, em 3 de outubro de 1990, legalmente aconteceu a reunificação, com a RDA passando a integrar a República Federal da Alemanha (nome oficial da antiga Alemanha Ocidental e do atual país unificado).
O filme “Adeus, Lênin!” (2003), de Wolfgang Becker, é sensacional justamente por mostrar a velocidade com que se deram as mudanças na Alemanha – e, podemos dizer também, em todo o Leste Europeu – entre 1989 e 1990.
Christiane (Katrin Sass) é uma dedicada militante socialista desde que seu marido fugiu para a Alemanha Ocidental em 1978. Em 7 de outubro de 1989, ao ver seu filho Alexander (Daniel Brühl) ser preso pela polícia durante violenta repressão a uma passeata pró-democracia, tem um ataque cardíaco e entra em coma por oito meses.
Nesse tempo, acontecem as mudanças na Alemanha. Erich Honecker renuncia, a fronteira entre os dois Estados alemães é aberta, e os produtos orientais começam a sumir das prateleiras das lojas para serem substituídos por importados (tanto do oeste como de outros países ocidentais). Os costumes dos alemães orientais passam a ser considerados “velhos”, que precisam ser urgentemente abandonados.Até em sua casa as mudanças são drásticas: a filha Ariane (Maria Simon) troca os antigos móveis por outros mais “modernos” (leia-se “ocidentais”), e larga os estudos para trabalhar como vendedora em um drive-thru do Burger King, onde conhece o novo namorado, o ocidental Rainer (Alexander Beyer), que leva para morar junto no apartamento. Já Alex, durante suas visitas à mãe no hospital, apaixona-se (e é correspondido) pela bela enfermeira soviética Lara (Chulpan Khamatova), que conheceu naquela passeata de outubro de 1989, quando ela o ajudou durante um engasgo com uma maçã.
Quando Christiane acorda, em junho de 1990, o médico alerta que ela não pode sofrer fortes emoções, devido ao risco de sofrer outro enfarto, e logo Alex percebe que ela não resistirá ao saber das mudanças que aconteceram no país. Decide não só levá-la para casa (temendo que ela saiba de tudo caso fique no hospital), como também fazer com que ela pense que absolutamente nada mudou.
Porém, mesmo dentro de casa é difícil Christiane não ter nenhuma percepção de que as coisas não são mais as mesmas. Quando ela quer pepinos de Spreewood (iguaria muito apreciada na Alemanha Oriental), Alex só encontra importados da Holanda – que na prática são a mesma coisa (afinal, são pepinos, apenas com outra marca) – e assim os armazena em frascos com rótulos antigos, para que a mãe tenha a ilusão de estar comendo pepinos “socialistas”. Quando ela quer assistir televisão, obviamente as transmissões já não são mais as mesmas, e a solução é “transmitir” (via utilização de um videocassete escondido) programas antigos. Aliás, interessante papel tem a televisão: por conta da ilusão que muitos têm de que ela “mostra a verdade” (afinal, são as imagens do que acontece, logo, “só pode ser verdade”), Alex se utiliza de noticiários fictícios, produzidos em parceria com seu amigo ocidental Denis (Florian Lukas) – que sonha em ser diretor de cinema – para que acontecimentos totalmente imprevistos, como um banner da Coca-Cola em um prédio vizinho ou carros ocidentais estacionados em Berlim “Oriental” (não esqueçamos que não há mais muro), tenham uma explicação que mantenha em sua mãe a crença na continuidade do sistema socialista (e até de seu fortalecimento, com o consequente “colapso do capitalismo” na Alemanha Ocidental), mesmo com tudo indicando o contrário. Porém, com o passar do filme acabamos descobrindo também que não é só Christiane que vive uma ilusão.
Ao mesmo tempo que nos faz rir das inusitadas situações, “Adeus, Lênin!” também nos leva a boas reflexões. Como sobre a velocidade das mudanças, que se deram com muita rapidez. Naquela época, apenas os mais velhos tinham lembranças em primeira mão (*) de como era uma Alemanha unificada; no leste, a maioria esmagadora da população não tinha ideia de como era o dia-a-dia de uma sociedade capitalista, já que por mais de 40 anos haviam vivido sob o “socialismo” de modelo soviético. Obviamente isso foi um impacto muito grande sobre os habitantes da parte oriental da Alemanha, que não por acaso tiveram bastante dificuldades para se adaptarem aos novos tempos: além de não terem mais a garantia de sobrevivência que o regime “socialista” dava, a solidariedade entre as pessoas (que até ajudava elas a resistirem ao autoritarismo) foi minada pela excessiva competitividade estimulada pelo capitalismo.

Outra coisa interessante em “Adeus, Lênin!”, tem a ver com a ideia de “nação”, que é ligada à de “nascimento”. Não por acaso, trata-se a “pátria” como se fosse uma “mãe” ou um “pai”. Afinal, tratam-se de nossas principais referências de origem, de pertencimento. Tanto que a palavra “pátria” lembra, de certa forma, “pai”. Em inglês, se diz motherland (numa tradução literal, “terra-mãe”) e em alemão, vaterland (“terra-pai” literalmente). No caso do filme, isso fica muito claro quando Alex afirma que a Alemanha Oriental é um país que, na memória dele, sempre estará conectado com a mãe. Afinal, além dela ter sido uma apaixonada socialista, também foi ela que o pôs no mundo e o criou – assim como a RDA foi o país onde ele nasceu e cresceu. Um país que no final de 1989 “entrou em coma”, assim como sua mãe – que, ao acordar, fez com que, ao menos para Alex, a Alemanha dividida continuasse a existir, parecendo com o que era antes, mas que não era mais a mesma coisa: no caso, tratava-se de uma divisão entre a ilusão e a realidade.
E ao mesmo tempo que quer mudanças, Alex percebe que também não quer perder as suas origens – no caso, a mãe e o país, como fica claro quando ele diz que aquela Alemanha Oriental fictícia que criara para que sua mãe não se chocasse com as mudanças era a RDA que gostaria de ter tido na realidade. O que é explicado pelas palavras do filósofo esloveno Slavoj Zizek:

Quando as pessoas protestavam em regimes comunistas do Leste Europeu, a grande maioria delas não estava pedindo por capitalismo. Eles queriam a liberdade de viver suas vidas fora do controle estatal, de ir e vir e falar o que desejassem; eles queriam uma vida de simplicidade e sinceridade, liberta da indocrinação ideológica primitiva e da cínica hipocrisia dominante.Como muitos analistas observaram, os ideais que levaram os manifestantes às ruas eram, de alguma forma, uma extensão daqueles da própria ideologia socialista – as pessoas aspiravam por algo que pode ser melhor aproximado através do termo “socialismo com um rosto humano”. Talvez essa atitude mereça uma segunda chance.

Drama, 118 min. Baixe esse filme.

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(*) Segundo Eric Hobsbawm em Era dos Extremos, passamos a armazenar “lembranças em primeira mão” de como é a vida “real” por volta dos 15 anos de idade: no capítulo em que fala justamente das mudanças no Leste Europeu e do fim da União Soviética, Hobsbawm diz que em 1990 todo húngaro acima dos 60 anos (ou seja, nascidos até 1930) de idade tinha lembranças de como era a Hungria antes do “socialismo” (teria no mínimo 15 anos em 1945); já na URSS, nenhum cidadão com menos de 88 anos (ou seja, nascido depois de 1902) tinha alguma ideia da Rússia pré-Revolução de 1917. Para o caso alemão, podemos aplicar os mesmos números da Hungria, visto que o país foi dividido, na prática, em 1945, com o final da Segunda Guerra Mundial – embora as repúblicas do oeste e do leste só tenham sido fundadas em 1949.

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4 responses to “Adeus, Lênin!”

  1. Vanessa says :

    porque mãe de alex nao podia saber das transformaçoes politicas?

    • nideoliveira71 says :

      Porque ela apoiava a RCA e ficou em coma durante a queda do muro, e como não podia sofrer emoções sob pena de entrar em coma novamente ou morrer – por recomendação médica – eles decidem “poupá-la”.

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