Biutiful

Por Maurício Caleiro

Biutiful e a miséria globalizada

O fenômeno das migrações tem se acelerado dramaticamente, em âmbito mundial, como um dos principais efeitos do capitalismo tecnofinanceiro que assomou ao primeiro plano, em conluio com o neoliberalismo, a partir de finais dos anos 80, intensificando-se nas décadas seguintes.
Estima-se que o mundo tenha, atualmente, mais de 200 milhões de imigrantes ilegais. A estes se somam os imigrantes legais, aqueles que repetidamente tentam imigrar ilegalmente e um enorme contingente de pessoas que migram regionalmente. Se na década de 70 havia cerca de 2,5 milhões de refugiados, hoje estima-se que o número supere os 25 milhões.
“A humanidade está em marcha na urgência e no caos. Nas últimas décadas, a pobreza, as guerras e a repressão deslocaram milhões de pessoas no mundo inteiro. Algumas fogem para salvar a pele, outras arriscam a pele para fugir da miséria” – o texto faz parte do catálogo da mostra Migrações, baseado no livro Êxodos e na qual o fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado expõe um trabalho de sete anos, abarcando 45 países, na tentativa de retratar em instantâneos tal fenômeno. São imagens reveladoras.
Novas faces do capital
No contexto dos processos de desterritorialização intensificados no bojo da globalização, a miséria deixa de ser exclusividade dos rincões da Ásia, da África e da América Latina e passa a coabitar, ainda que nas franjas periféricas, a democracia social europeia.
Assim, o fenômeno das migrações, entre outros feitos, altera a face dos países europeus desenvolvidos. São frequentes as apreensões de embarcações repletas de norte-africanos tentando desembarcar na Itália ou na Espanha, e chegar a determinadas áreas da Inglaterra ou à estação central de Frankfurt, centro financeiro da Alemanha, é confrontar-se com um ambiente urbano o qual, não fossem detalhes como placas informativas e nomes de rua, poderia ser facilmente confundido com o de um centro urbano da Índia – sendo que e é mais fácil avistar um cartaz do astro do cinema indiano Shahrukh Khan do que de qualquer estrela ocidental.
Etnicidade, arte e política
Essas mudanças geram como contra-efeito o fortalecimento de um discurso conservador de preservação da “identidade nacional”, o qual, somado a uma visão míope das soluções para a crise econômica mundial – adotando o remédio que a envenenou – fortalece a direita europeia. Intensificam, ainda, a violência de cunho étnico/racial – as denúncias contra o aumento dos casos de violência racial e de discriminação em todos os países da UE crescem ano após ano.
Esse novo quadro multiétnico está longe de receber das artes em geral a atenção devida. O cinema, arte industrial, tem sido particularmente incapaz de captar – o que diria com a pujança que o tema propicia – essa diversidade urbano-populacional já não tão nova. No mais das vezes, a Europa que aparece nas telas continua sendo branca e ocidental, com a velha nova pobreza multiétnica sendo relegada a regimes de invisibilidade.
“Pirineus is Biutiful”
O recém-lançado Biutiful, do mexicano Alejandro González Iñárritu (cujo trailer legendado você pode ver no final do comentário), é uma das honrosas exceções. Nele, a Barcelona glamorosa e ensolarada dos turistas dá lugar a uma periferia sórdida, uma babel poluída onde senegaleses, chineses e espanhóis em petição de miséria disputam as migalhas do capitalismo avançado [daqui em diante contém spoilers].
Os chineses se dividem entre uma dupla de exploradores e dezenas de trabalhadores sujeitos a um regime de trabalho pré-Revolução Industrial, que inclui confinamento noturno (tal como ocorre com bolivianos na industria têxtil paulista). Trancados num cubículo, sua morte coletiva dos por asfixia de gás (que vaza dos aquecedores vagabundos trazidos pelo protagonista, Uxbal), ao reproduzir o meio pelo qual milhões de judeus foram exterminados por Hitler, atenta metaforicamente para um outro holocausto, diário, cruel, mas quase invisível.
Embora às próprias custas, sem a opressão hierárquica vivenciada pelos chineses no filme, os senegaleses, ao comercializarem os artigos piratas que os orientais fabricam, colocam-se em uma situação duplamente vulnerável: como o menos remunerado elo da cadeia de produção e cotidianamente à mercê da violência da polícia.
Personagem real
Coordenando esses elos, fazendo o meio-de-campo com a polícia e explorando, não sem paternalismo, a força de trabalho de chineses e senegalenses, encontra-se Uxbal, o personagem de Javier Bardem. Baseado em uma figura real – como relata Iñárritu num emocionante e historicamente bem-informado relato sobre a construção do filme [ver a aba “Cómo se rodó”] -, o incomum protagonista, que tem ainda de cuidar de dois filhos pequenos e de administrar os vai-e-vem de sua ex-mulher, gravemente bipolar, é informado, logo no início do filme, que está com câncer na próstata e tem poucos meses de vida.
Sem um milímetro de concessão à pieguice, sua busca por redenção e o questionamento da possibilidade de ela ocorrer em meio a tal existência são as temáticas últimas do filme, secundadas por uma miríade de questões existenciais e sociais que as tramas inter-pólos , em sobreposição, despertam.
O astro espanhol dá mostras, uma vez mais, de ser um grande ator. Seu Uxbal é, a um tempo, tão crível e tão contraditório, tão frágil e tão abjeto – e sobretudo tão humano – que é como se existisse de fato. É evidente que os méritos por tal feito não se devem apenas à impressionante atuação de Bardem, mas a um roteiro que promove uma caracterização extremamente bem construída do personagem, a qual não permite enquadrá-lo nos rótulos fáceis de herói ou mesmo de anti-herói – pois ele os transcende.
“Uma porrada”
No entanto, ao contrário do premiadíssimo Amores Brutos (Amores Perros, 2000), do mesmo Iñárritu, em que a narrativa flui fácil e as influências de Tarantino abrem um flanco de comunicação com o público jovem, Biutiful não é um filme para qualquer platéia: o ritmo narrativo é denso, com uma cadência própria, desapressada, e não há a preocupação em fornecer ao espectador picos catárticos – ao contrário, procura-se explorar ao máximo a profundidade psicológica dos personagens e o potencial dramático das situações de modo a fazer aflorar sentidos epifânicos.
O resultado é um filme portentoso, incomum, que arranca lirismo e humanismo da aridez dos personagens e das situações sem deixar de ter o efeito de um soco no estômago.
Drama, 147 min. Baixe esse filme.
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