Cine Majestic

Por Rodrigo Carreiro
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Se fosse um partido político, “Cine Majestic” (The Majestic, EUA, 2001) receberia o rótulo de centro-direita, na Europa, ou de republicano moderado, no país de origem. O discurso adotado pelo cineasta francês radicado nos EUA, Frank Darabont, busca reafirmar o velho e lamentável chavão dos Estados Unidos como bastião da democracia e lar definitivo da liberdade de expressão. De passagem, o diretor discute a importância da ética nos mínimos gestos da vida dos cidadãos. O conteúdo ideológico é, portanto, tema central da obra.
Para o grande público, entretanto, o maior chamariz do trabalho é a presença de Jim Carrey como protagonista. Ele vive um roteirista de cinema em ascensão chamado Peter Appleton que, na década de 1950, recebe uma notícia assustadora: acaba de ser convocado para depor no Comitê de Atividades Antiamericanas, o braço do Congresso Nacional, comandado pelo senador Joseph McCarty, que relegou dezenas de atores e cineastas a uma lista negra em Hollywood, deixando-os desempregados por anos a fio. A vida de Appleton entra em parafuso. A namorada o larga, o estúdio congela seu próximo projeto.
Deprimido, ele toma uma bebedeira e sai dirigindo sem rumo. Sob chuva, acaba despencando de uma ponte, num rio, e batendo com a cabeça. Acorda então na praia de uma cidadezinha pequena da costa californiana, Lawson. Está sem memória. Na cidade, ele é reconhecido como Luke Trimble, um herói de guerra dado como desaparecido nove anos antes. Aí começa uma vida mansa, às voltas com a restauração do antigo cinema do pai (Martin Landau) – o cine Majestic do título – e com a reconquista da antiga namorada, Adele (Laurie Holden). O público compartilha a dúvida do personagem e dos moradores de Lawson: será que Peter poderia mesmo ser Luke, desmemoriado após um trauma de guerra?
Se tivesse centrado a trama nesse dilema, Darabont poderia ter sido mais feliz. O foco narrativo da obra, porém, está fragmentado em vários subtemas, todos repletos de conteúdo ideológico. Daí vêm os piores defeitos do trabalho: o tom moralista e piegas do roteiro, o amontoado de clichês que ajuda o espectador a adivinhar como cada seqüência acabará. Os chavões incluem muitos personagens superficiais e estereotipados, como um herói boa-praça, uma garota ingênua que anseia por proteção, um serviçal negro cheio da sabedoria das ruas, um antagonista à espera da redenção. Isso tudo quase transforma o filme numa chatice total.
Os clichês soam como homenagem equivocada à magia da época de ouro de Hollywood, o único subtema a permanecer em todo o enredo. E é nesse ponto em que, contraditoriamente, começam os acertos da obra. Entre trechos de filmes antigos (“Invasores de Corpos”, “Um Bonde Chamado Desejo”) e citações explícitas (“Um Americano em Paris”, “O Dia Em Que a Terra Parou”), a nostalgia da experiência coletiva e exorcizante do cinema, junto com a crítica à celebração individualista da TV, mostra-se o ponto mais forte de “Cine Majestic”.
Para os mais atentos, soam deliciosas as seqüências em que Darabont rende homenagem aos seus inspiradores. Uma delas emula uma cena de julgamento de “A Mulher Faz o Homem”, de Frank Capra; outra, já ao final, decalca o magistral plano que, sem palavras e sem cortes, conta uma história através de fotografias, na abertura de “Janela Indiscreta”, de Alfred Hitchcock. Nesses momentos, “Cine Majestic” vale a pena.
Não dá para deixar de mencionar, claro, a boa atuação de Jim Carrey, no primeiro papel totalmente dramático da carreira. Mesmo em “O Show de Truman” e “O Mundo de Andy”, investidas anteriores do comediante na área do filme sério, ele tinha bons momentos de humor físico, cheio de caras e bocas. Em “Cine Majestic”, mais contido e sem cenas engraçadas, Carrey prova que é mesmo um ótimo ator. Não houvesse escorregado no ufanismo e no excesso de clichês narrativos, Darabpont poderia comemorar um filme certeiro. Mesmo assim, “Cine Majestic” pode ser um bom programa para quem ainda sonha com a magia do velho cinema. Drama, 87 min. Baixe esse filme.
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