Viver a Vida

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Nana (Anna Karina) é uma jovem parisiense que já foi casada e tem um filho que vê somente por fotografias, sonha em ser atriz e trabalha em uma loja de discos, mas está cheia de dívidas e precisa de dinheiro. Nana decide então se prostituir, e para isso cria uma personagem.

A trajetória de Nana é contada por Jean-Luc Godard (roteiro e direção) em doze atos à maneira brechtiana, como era comum naqueles tempos revolucionários da Nouvelle Vague. Cada ato é precedido de palavras-chave referentes ao que será visto em seguida. Não há surpresas nas ações, mas muita filosofia nos diálogos. As referências à Bertolt Brecht aparecem em vários momentos, inclusive no diálogo da protagonista com a polícia no quarto ato. “Eu é outra pessoa”, diz Nana ao policial.

O título original, Vivre Sa Vie em francês, funciona como gíria para descrever prostituição, e é uma tradução literal da narrativa. Rodado em 1962 em preto e branco com a esplendorosa fotografia de Roaul Coutard, contou com a anti-convencional trilha sonora de Michel Legrand e foi ganhador do prêmio especial do júri e do prêmio Pasinetti no Festival de Veneza.

Apesar de Godard não fazer cinema para o senso comum e manter suas características – como as discussões filosóficas, os atores de costas para o público, ou escutarmos um dos personagens falando enquanto outro é focalizado –, esse filme é considerado um dos mais fáceis do cineasta francês.

No terceiro ato, o diretor faz uma referência e homenagem a um clássico do cinema mudo. Nana está no cinema assistindo “A Paixão de Joana D’arc”, de Carl T. Dreyer (1928) e se identifica com a história na tela. “Vendeu seu corpo, mas guardou pura a alma”, diz o narrador, num raro momento de emoção da personagem no filme.

Destaque para a ‘desdramatização’ de Karina, uma atriz fria e precisa, que em nenhum momento nos deixa sentir piedade de sua personagem. No elenco ainda estão Saddy Rebbot, André S. Labarthe e Guylaine Schlumberger.

Nas mãos de um cineasta comum seria um melodrama encharcado de lágrimas, mas nas mãos de Godard é um filme profundo, sensual, belo e enigmático. Apesar de ter sido feito na fase mais aclamada do diretor e estar entre muitas obras-primas, Viver a Vida passou despercebido para muitos. Mas não se engane: É um filmaço! Drama, 85 min. Baixe esse filme.

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