Malena

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Por Rodrigo Carreiro
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Se Giuseppe Tornatore conhecesse um pouco mais a cultura brasileira, poderia ter traído o fiel colaborado e mestre supremo das trilhas sonoras, Ennio Morricone. Do lado de cá do oceano Atlântico, existe uma música muito popular, que se encaixa perfeitamente no enredo proposto pelo cineasta italiano em “Malena” (Itália, 2000). Chama-se “Geni e o Zepelim”, e foi composta por Chico Buarque. Todo mundo conhece a cantoria: “Joga pedra na Geni…”. Troque o nome da garota por Maddalena e você saberá exatamente do que trata o filme de Tornatore, um exemplar clássico do longa-metragem adorado pelo público e torpedeado pela crítica.

A razão principal do massacre à obra de Giuseppe Tornatore é a repetição de certos temas já presentes no maior sucesso do cineasta, o melodrama de 1988 “Cinema Paradiso”. Mais uma vez, o diretor italiano celebra o passado idílico das cidadezinhas mediterrâneas européias e o amor pelo cinema, em uma história limpa e simples, narrada com afeto e uma dose extra – talvez excessiva – de nostalgia. Maddalena (Monica Belluci, em arrancada fulminante rumo ao título informal de mulher mais bela do planeta) não é a protagonista, mas é o centro do universo erguido por Tornatore na pequena cidade da Sicília onde, em 1941, se passa o longa-metragem.

O personagem principal é um rapaz de 13 anos, Renato (Giuseppe Sulfaro). “Malena” começa no dia em que ele ganha dos pais uma bicicleta. Durante as primeiras voltas a bordo do brinquedo, Renato vê pela primeira vez Malena, a linda esposa de um soldado do lugarejo. Fica (compreensivelmente) fascinado pelas formas voluptosas da mulher. Também naquele dia, Mussolini põe o país na II Guerra Mundial. Por causa disso, o marido de Malena viaja para os combates. É a deixa que os homens da vila esperam para fazer a corte da garota. Malena muda o lugar. As mulheres morrem de ciúmes; os homens, de desejo; os adolescentes, como Renato, de paixão.

A trajetória de Malena será errática. A ausência do marido a obriga a enfrentar um período financeiramente difícil. Isso, junto ao fato de que ela permanece rejeitada pela sociedade do lugar devido ao medo das mulheres, a joga na prostituição. O filme narra então a viagem da moça rumo ao inferno, vista pelos olhos sonhadores de Renato.

O rapazola ama filmes, sobretudo porque consegue se ver dentro deles, sempre bancando o herói – e adivinhem quem é a mocinha? Tornatore constrói paródias deliciosas das antigas aventuras de Tarzan e do clássico “No Tempo das Diligências”, de John Ford, colocando seu herói dentro das películas que ama. São os momentos mais tocantes do filme, que conta também com uma fotografia irrepreensível de Lajos Koltai. As imagens se aproveitam dos cenários naturais maravilhosos da costa italiana.

Se Malena sofre, Renato também o faz. Renato sofre porque é vítima de uma paixão intensa, que o leva a usar a bicicleta recém-adquirida para seguir a mulher por toda a cidade. Em “Malena”, o filme, Tornatore também aborda a polêmica vocação do cinema pelo voyeurismo. Seu herói não se furta a espiar a vida de Malena sempre que pode, literalmente olhando pelo buraco da fechadura. Essa abordagem controversa, que já destruiu filmes magníficos como “A Tortura do Medo”, de Michael Powell, pode ser parcialmente responsável pela rejeição quase maciça que o longa-metragem sofreu, por parte da crítica.

Os motivos alegados pelos estudiosos para tamanha rejeição são outros, e até compreensíveis. De certa forma, “Malena” não passa de uma variação de “Cinema Paradiso”, com a mesma abordagem melodramática, uma criança como protagonista, localização espacial (pequena cidade na Itália) e temporal (anos 1940) semelhantes. Se isso é um dado negativo ou positivo, contudo, é algo que depende do ponto de vista daquele que vê. Woody Allen, por exemplo, costuma repetir temas e personagens dos filmes que dirige sempre que pode, mas nem por isso deixa de ser celebrado como grande autor. Gênio, com certeza, Tornatore não é. Mas “Malena” não deve ser desprezado dessa forma.

Quem gosta de Monica Belluci tem, no filme italiano, um prato cheio. Embora ela tenha poucos diálogos, já que Renato prefere idealizar a moça a abordá-la diretamente e correr o risco de destruir o próprio sonho, sua imponente presença física preenche a tela. Romance, 90 min. Baixe esse filme.
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One response to “Malena”

  1. Anônimo says :

    Nossa um blog que faz tão boas críticas sobre os filmes tinha que estragar no final deixando um link para download. PIRATARIA É CRME!!!!!!!!!!!!!!!!!! Ia virar leitor do blog, não vou mais

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