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Como Água Para Chocolate

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Como-agua-para-chocolateNo início do século XX, em plena Revolução Mexicana, numa fazenda próximo da fronteira com o Texas, Tita (Lumi Cavazos), é a filha mais nova de Elena (Regina Torne) e está condenada a não se casar para poder cuidar da mãe na velhice. Ela cresceu aos cuidados da cozinheira Nacha (Ada Carrasco), envolta nos aromas da culinária, e orientada pela sabedoria de sua ama, desenvolveu o dom de transpor para os alimentos todas as suas emoções, e destes, pra os comensais. Tita conhece Pedro Muzquiz (Marco Leonardi) por quem se apaixona e é correspondida. Ao pedi-la em casamento, Pedro recebe de Elena a oferta de se casar com sua filha mais velha, Rosaura (Yareli Arizmendi), e ele aceita para poder permanecer próximo de sua amada. Elena então encarrega Tita como responsável pela cozinha da casa e ela se vê obrigada a cozinhar no casamento de sua irmã com Pedro. Ao preparar o banquete, ela transpõe diferentes sentimentos aos alimentos, e faz com que os convidados numa espécie de ritual mágico experimentem alimentos, aromas, texturas e sabores de uma maneira tão intensa e exacerbada que todos acabam por vivenciar os seus sentimentos naquele dia.
Como Agua para Chocolate é baseado no romance homônimo de Laura Esquivel, que se tornou best seller em vinte países, e refere-se a uma temperatura específica do fogo para cozinhar. Vencedor de três Kikitos no Festival de Gramado de 1993, nas categorias de Melhor Filme Júri Popular, Melhor Atriz para Lumi Cavazos e Melhor Atriz Coadjuvante para Claudette Maillé, também foi indicado como Melhor Filme Estrangeiro no Globo de Ouro e no BAFTA. Foi a produção estrangeira de maior bilheteria nos Estados Unidos em 1993.
O cineasta Alfonso Arau, diretor e produtor, realiza um filme sobre amor, tradição, paixão, magia e misticismo. A cozinha transforma-se no grande cenário da história, onde o diálogo principal é dito através da arte de cozinhar. A própria Laura Esquivel assina esse roteiro que abusa da sensibilidade e de um realismo fantástico tipicamente latino-americano. É uma experiência para todos os sentidos. Com um pouco de esforço dá até para sentir o cheiro e o sabor dos pratos que Tita prepara. Um filme mágico! Drama, 105 min. Baixe esse filme.
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Chove Sobre Santiago

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Um jornalista anda de carro pelas ruas de Santiago no dia 11 de setembro de 1973. Chove e ele observa a estranha movimentação nas ruas enquanto ouve notícias pelo rádio. O drama/documentário de Helvio Soto, de 1975, foi rodado na Bulgária (onde o diretor estava exilado na época) e vai aos poucos, mostrando os anos do governo da Unidade Popular no Chile (1970-1973) e o dia do golpe, com todos os detalhes violentos, incluindo o Estádio Nacional transformado em prisão dos ‘subversivos’ e a tomada do Palácio La Moneda.
É possível acompanhar como foi tramado o golpe pelas Forças Armadas e todas as sabotagens e boicotes que geraram desabastecimento e jogaram a classe média contra o governo de Salvador Allende.
Mesmo durante o governo socialista, o general Augusto Pinochet esteve à frente das Forças Armadas, assim como toda a estrutura burocrático-militar foi mantida intacta. O filme ainda traz o último discurso de Allende, transmitido pelo rádio de dentro do Palácio La Moneda, já completamente cercado pelos tanques e, também, o enterro do poeta chileno Pablo Neruda, talvez a única manifestação política pública depois do golpe. A trilha sonora é de Astor Piazzolla, que dispensa comentários ou apresentações.
Apesar de o filme fazer uma referência poética ao título, “Chove Sobre Santiago” foi o nome da operação arquitetada pelas forças reacionárias do Chile e apoiada pelos EUA através da CIA, que culminou com o golpe de Estado no dia 11 de setembro de 1973. A operação Chove Sobre Santiago colaborou ativamente com a Operação Condor, que trocava informações sobre ativistas de esquerda em todo o Cone Sul.
A ditadura chilena foi responsável por um dos maiores banhos de sangue entre as ditaduras sul-americanas, só perdendo para a Argentina. Oficialmente foram mais de três mil mortos, mas estima-se quase vinte mil mortos e desaparecidos.
Embora tenha muitos defeitos, desde montagem, fotografia e até mesmo a estranheza do diálogo em francês sobre uma história que se passa em um país sul-americano, é um filme muito especial. Principalmente para ativistas de esquerda. Eu o assisti pelo menos trinta vezes na adolescência e início da minha militância política, no final dos anos 80. E ainda emociona. Drama, 110 min. Baixe esse filme.
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Trecho do filme:
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* No link torrent está inclusa a trilha sonora.

O Mesmo Amor, A Mesma Chuva

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Na Argentina de 1980, Jorge (Ricardo Darín) é um jornalista que escreve contos românticos para uma revista. Ele é talentoso, uma promessa literária, mas receoso demais em mergulhar de vez no mundo da literatura. Numa noite tempestuosa, Jorge encontra Laura (Soledad Villamil), uma atriz que ganha a vida como garçonete, e fica fascinado ao vê-la na chuva. A seguir, ele assiste a um curta-metragem adaptado de um de seus contos onde Laura é a protagonista.
Eles se aproximam e vivem um romance durante um ano e meio. O namoro dos dois, que atravessa a Guerra das Malvinas, o fim da ditadura militar e o início do governo Alfonsín, se desgasta pela infidelidade dele e é rompido. No final dos anos 90, Jorge é um crítico de arte desiludido, corrompido, e Laura uma bem-sucedida produtora cultural e – como o próprio nome do filme entrega – eles se reencontram.
O roteiro acompanha a história dos protagonistas por vinte anos e vai mostrando com extrema habilidade as transformações que os fatos sociais, fracassos e realizações fazem na história de cada um. Tanto personagens como situações são críveis demais e poderiam fazer parte da vida de qualquer pessoa. Esse é, talvez, o maior mérito do cineasta Juan José Campanella: fazer poesia do banal, do corriqueiro, e nos transportar para dentro de seus filmes.
Foi lançado no Brasil apenas em vídeo e depois do filme posterior do diretor, O Filho da Noiva, 2001. É o primeiro filme da parceria do diretor com Ricardo Darín, que rendeu uma espécie de trilogia urbana, juntamente com o especialíssimo O Filho da Noiva e Clube da Lua (2004).
El Mismo Amor, la Misma Lluvia é uma história de amor sem fantasias, que mais parece uma história que vivemos ou vimos acontecer. Não há como não se emocionar. Sensibilidade ímpar sem deixar de criticar os fatos da história recente da Argentina. No tom exato, sem carregar nas tintas. Comédia romântica, 116 min.  Baixe esse filme.
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O Banheiro do Papa

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Dirigido por César Charlone e Enrique Fernández, O Banheiro do Papa é baseado em acontecimentos reais. Em maio de 1988, o Papa João Paulo II visita o Uruguai e a cidade de Melo, próxima à fronteira com o Brasil, está no roteiro.
Saber que o Papa visitará a pequena e decadente cidade gera uma enorme expectativa em seus habitantes, que veem no (aparentemente) grandioso evento a oportunidade de ganharem muito dinheiro vendendo lanches e bebidas aos fiéis de outros lugares – principalmente do Brasil – que visitarão Melo e, segundo a televisão, serão milhares. O povo está eufórico: o Papa “abençoará a cidade” não simplesmente com sua mensagem religiosa, como também com o lucro advindo dos visitantes, que tirará a população da pobreza predominante.
O personagem principal é Beto (César Troncoso), que ganha a vida contrabandeando produtos do Brasil para o Uruguai. E tem uma ideia para ganhar dinheiro com a visita do Papa: construir um banheiro para os fiéis que estarão na cidade para ver o Papa, e cobrar uma taxa pelo uso. Afinal de contas, se eles serão milhares como a televisão diz, e irão comer e beber tanto…
Beto vê também a possibilidade de dar uma vida melhor à sua esposa Carmen (Virginia Méndez) e à sua filha Silvia (Virginia Ruiz), que sonha em ser jornalista e para isso precisa ir para Montevidéu: o lucro do banheiro poderá ajudar a custear os estudos da menina.
O que achei melhor em O Banheiro do Papa é a reflexão que nos oferece, mais do que outras questões mais técnicas*. Afinal, é visível que um grande evento gera muita expectativa na população do local onde ele ocorrerá – como se viu em Melo. O filme também demonstra como a televisão, de forma sensacionalista, ajuda a aumentar a empolgação, dando destaque a quem acha que tudo será “muito grandioso”. Mas quando alguém discorda de todo esse otimismo, bom, aí é melhor tirá-lo do foco, não dar espaço para esses “pessimistas” que só sabem reclamar e não querem ver a cidade crescer.
É capaz de alguém agora ter pensado “já vi esse filme”, mesmo sem ter assistido a O Banheiro do Papa. Óbvio: o Brasil vive uma grande expectativa pela realização da Copa do Mundo em 2014 e dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro em 2016. Resta saber se os finais de ambas as histórias serão semelhantes.
Drama/Comédia, 97 minBaixe esse filme.
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* Como algumas cenas que tiveram um aspecto cômico, quando deveriam ter maior dramaticidade, ainda mais sendo o filme baseado em fatos reais; ou a referência à moeda brasileira como “Cruzeiro” (em 1988 o Brasil usava o Cruzado, e o Cruzeiro, que foi a moeda até 1986, voltaria a ser usado em 1990).