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Ran

Por Rodolfo Cândido
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Numa história que analisa o reverso do poder, Kurosawa elabora cenas inesqueciveis, enquanto os conflitos humanos tratados: a disputa pelo poder, a vingança, as paixões, a relação familiar, são transformados em poesia, uma poesia que reflete a natureza humana. A poesia nos conecta através das estonteantes imagens e das representações um pouco exageradas, mas sinceras ao extremo. O que é admirável no filme é o trabalho com as imagens, que dá margem à compreensão da emoção, dos pensamentos, sentimentos dos personagens e que por vezes, levam à reflexão.
Com uma temática universal a história daquela família reflete muitas outras famílias. Hidetora em sua desilusão segue adiante e o que ele vivencia é a destruição de sua família, a desmoralização do poder, o amor inexistente e a violência descontrolada que atinge a todos, bons e maus…
Um enredo brilhante e inteligente. Um filme trágico e talvez profético. Um filme especial, excepcional em cada detalhe. Um filme que mescla a beleza das cenas com a genialidade do enredo, fazendo dele uma verdadeira obra de arte eterna. E a carga dramática expõe sua sensibilidade e humanismo em meio aos confrontos morais e ação bélica.
A junção da beleza harmônica de cores dos cenários com a bela cultura japonesa fazem deste filme num dos mais belos filmes em termos visuais. As paisagens são sem dúvidas admiravelmente deslumbrantes e com cores que contrastam entre si em um equilíbrio excepcional. Até o vermelho vivo do sangue é bem escolhido, com um toque artístico. O exagero de Kurosawa acaba por resultar em brilho visual.”Kurosawa, com toda a certeza, construiu neste filme, as mais belas batalhas campais já vistas no cinema.”O filme traz consigo esse rigor técnico completado com a qualidade e a excelente escolha nos enquadramentos e planos.
O perfeccionismo e o bom gosto do diretor se manifesta em cada cena, com imagens de imensa beleza e muito bem detalhadas, principalmente nas batalhas grandiosas e sangrentas. Kurosawa, com toda a certeza, construiu neste filme, as mais belas batalhas campais já vistas no cinema.
A trilha sonora é riquíssima e faz grande proveito de instrumentos tipicamente japoneses, e durante as cenas de batalha o silêncio toma conta de modo eficaz. O desempenho do elenco é também um triunfo de grande destaque, principalmente Mieko Harada, que interpreta a detestável Lady Kaede, a cena em que ela foge pelo palácio ou o estrondoso som do tecido de sua roupa sendo rasgada, são cenas que ficam na mente dos espectadores por tempos. Tatsuya Nakadai como Hidetora, provoca desprezo que se transforma em desespero e no final acaba encontrando empatia com o espectador. E o fiel bobo da corte é brilhantemente interpretado pelo travesti (Ah eu sabia!!!) Shinnosuke Ikehata. Akira Terao como Taro expressa sentimentos conflitantes com louvor.
Um exemplo do brilhantismo de Kurosawa está destacado na primeira e última cena, na primeira os belos campos verdes acompanham o céu de beleza viva enquanto que na última o céu está vermelho, desolado, morto, com a pequena silhueta do personagem ao fundo. Uma linguagem cinematográfica de primeira grandeza.Ran: um genial aprofundamento sobre os sentimentos humanos, que tendem, a cada viver, entre o amor e o ódio, a ganância e a simplicidade, a loucura e o juízo, o triunfo e a desgraça, o perdão e o amargor. Uma viagem no mais profundo que se pode chegar nos corações humanos de grandes guerreiros da vida. Ran é acima de tudo, como disse Kurosawa: “uma serie de eventos humanos vistos do céu ”. Drama/Guerra, 160 min. Baixe esse filme.
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Os Sete Samurais


Por Gabriel Vince

Lançado em 1954, “Os Sete Samurais” é o filme mais aclamado do diretor Akira Kurosawa, ganhador do Leão de Prata no Festival de Veneza e foi influência e inspiração para muitos outros conhecidos diretores, como por exemplo Quentin Tarantino.
A influência deste filme na cultura pop não se limita apenas ao cinema, vemos também sua influência nos quadrinhos japoneses (o mangá) e em animes como Samurai 7, de Toshifumi Takizawa. O filme não tem menos que três horas de duração, e confesso que quando assisti, foram as três horas mais curtas que já vivi.
O interessante é que ele é dividido em dois atos, e no intervalo de um ato para o outro há uma pausa dentro do próprio filme de dez minutos, onde é mostrada uma inscrição enquanto corre uma trilha sonora ao fundo, algo no mínimo curioso, nunca tinha visto ou soube disto em cinema.
A história do filme se passa no Japão, século XVI, em um humilde vilarejo de lavradores que é constantemente atacado por saqueadores. Cansados de serem atacados, eles resolvem contratar samurais para defendê-los. A época era propícia em achar tal serviço, os senhores feudais não mantinham mais samurais, e muitos deles foram rebaixados a condição de Ronins, samurais eram vistos como guarda costas, os lavradores procuravam exatamente esses Ronins, samurais que não tinham a quem servir e viviam na marginalidade (em certos casos não tinham o que comer), e não tinham prestígio social maior que um simples camponês.
O primeiro samurai a aceitar tal serviço é Shimada (Takashi Shimura), um verdadeiro líder, totalmente desprendido e generoso, alem de ser um guerreiro experiente e estrategista astuto.  Ele recruta outros samurais para ajudar nesta empreitada, cada recrutado tinha sua característica única, falerei de alguns mais marcantes: Temos Kyuzo (Seiji Miyaguchi) um samurai de primeira linhagem, totalmente litúrgico, austero, intropesctivo que trata o bushido (caminho do samurai) como um verdadeiro sacerdócio. Temos também o jovem Katsushiro (Isao Kimura), um rapaz totalmente inexperiente e fascinado pelos samurais que anseia tornar-se um deles.
Mas o destaque mesmo vai para Kikuchiyo (interpretado pelo brilhante Toshiro Mifune), um bufão que é sempre ridicularizado no filme, e que tenta se unir ao grupo a qualquer custo. Kikuchiyo é um personagem inesquecível, uma figura cômica, o papel perfeito do anti-herói, totalmente fanfarrão; porém ele se demonstra, no decorrer do filme, um verdadeiro guerreiro, bastante destemido e enérgico. “Os Sete Samurais” é um filme incrível, diversão garantida. Aventura, 206 min.  Baixe esse filme
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Rashomon

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Por Rodrigo Carreiro
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Seria preciso retornar ao princípio dos anos 1950 para compreender a extensão do terremoto que “Rashomon” (Japão, 1950), primeira obra-prima de Akira Kurosawa, causou na indústria cinematográfica. O filme não apenas apresentou ao mundo o cinema do Japão, mas também trouxe inúmeras inovações técnicas e narrativas, gerando uma onda avassaladora de admiração pelas proezas conseguidas pelo cineasta oriental. O que temos aqui é um daqueles filmes-chave que, de tempos em tempos, impulsiona a linguagem cinematográfica para um novo patamar. Neste sentido, “Rashomon” se alinha a “O Nascimento de uma Nação” (1915), “Cidadão Kane” (1941) e algumas poucas obras fundamentais.
Título que a maioria dos cinéfilos conhece apenas pelo nome, “Rashomon” é um thriller de mistério simples na aparência, mas ambicioso tanto no aspecto visual quanto na narrativa. Antecipando em quatro décadas uma tendência de diretores estetas como Quentin Tarantino, Kurosawa constrói uma trama que conta a mesma história sob quatro pontos de vista diferentes, nenhum deles conclusivo. A técnica, então inédita, acabaria por influenciar muitos grandes cineastas do futuro, gerando dezenas de variações (“Os Suspeitos” de Bryan Singer, “Jackie Brown” de Quentin Tarantino, “Herói” de Zhang Yimou).
Embora fosse um ilustre desconhecido no Ocidente, ao assumir o projeto de “Rashomon”, Kurosawa já era um diretor importante no Japão, com dez anos de carreira e quase 20 filmes lançados. Ao contrário do que muita gente (que não conhece o filme) pensa, “Rashomon” passa longe do tipo de cinema épico, suntuoso e reflexivo que o cineasta desenvolveria nos anos seguintes. Aqui, pelo contrário, a narrativa é ágil e cheia de humor feroz, nitidamente influenciada por John Ford – especialmente nas cuidadosas e surpreendentes composições visuais – e pelos faroestes clássicos norte-americanos.
No plano narrativo, o longa-metragem consegue a proeza de ser simples e ambicioso ao mesmo tempo. Na aparência é bastante simples porque vai direto ao cerne da história: três homens se encontram nas ruínas de uma antiga construção medieval, durante uma pesada tempestade, e conversam para matar o tempo. Dois deles contam ao terceiro o caso extraordinário de um julgamento que acabaram de presenciar. Nele, quatro pessoas forneceram diferentes versões para o mesmo acontecimento – o assassinato de um homem no meio de uma floresta – sem que fosse possível reconhecer qual das versões era a verdadeira (se é que alguma delas era). Está aí o tema do filme: a verdade é sempre algo subjetivo e impossível de atingir, e os seres humanos têm uma tendência natural para florear o próprio papel nos acontecimentos.
A estrutura narrativa elaborada por Kurosawa se revela bastante ambiciosa quando observada com atenção. De fato, as ações são contadas em três tempos distintos, algo raro no cinema – os fatos mais importantes são flashbacks dentro de flashbacks. Há o presente (a espera pela chuva passar, com a conversa entre os três homens), o passado recente (o julgamento do bandido acusado pelo crime, em um pátio banhado de sol) e o passado distante (o assassinato na selva). Apesar de alternar os três tempos, a narrativa jamais fica confusa ou empolada por causa disso. O ritmo é ágil e as cenas, bastante dinâmicas.
“Rashomon” também chamou bastante a atenção, nos anos 1950, pelas extraordinárias composições visuais organizadas pela câmera de Kurosawa. Claramente fascinado pela profundidade de foco – recurso que John Ford adorava e Orson Welles tornara tremendamente popular após “Cidadão Kane” –, o cineasta japonês se esmerou para criar inúmeras seqüências com duas ações ocorrendo simultaneamente, uma em primeiro e outra em segundo plano. As seqüências de luta, filmadas em longas tomadas sem cortes, são bastante realistas para a época em que foram filmadas; nelas, os lutadores correm, pulam, ficam esbaforidos, tomam fôlego e voltam a lutar.
O cuidado com o visual foi tanto que Kurosawa chegou a tingir de preto a água utilizada nas cenas de chuva, para dar a impressão de uma tempestade realmente violenta. A chuva inclusive é um elemento narrativo importante, pois providencia para o espectador uma forma instantânea de saber a qual dos três tempos narrativos pertence cada nova cena. Além disso, a fotografia de Kazuo Miyagawa impressionou muita gente por quebrar um paradigma que já durava meio século no cinema: pela primeira vez na história, a câmera enfoca diretamente o sol (as tomadas amplas, que mostram o céu pesado e impassível pairando sobre os personagens como um deus tomado de fúria, se tornariam fundamentais na filmografia de Kurosawa).
Visto atualmente, “Rashomon” pode provocar alguma estranheza pelo caráter teatral e exagerado das atuações, bem longe do naturalismo que o cinema contemporâneo costuma perseguir. Preste atenção, por exemplo, na risada maníaca e na expressão corporal de Toshiro Mifune, que interpreta o bandido Tajomaru – ele foi instruído pelo diretor para se mover como um felino. Apesar da sensação de estranhamento, as atuações funcionam muito bem dentro do mundo fabular do filme. O maior destaque é Fumiko Honma, que protagoniza uma seqüência assustadora como uma diabólica médium. No todo, o que temos aqui é uma grande aula de cinema. Drama, 88 min. Baixe esse filme.
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Semana especial pelo centenário de Akira Kurosawa

Inicia hoje a semana especial pelo centenário de Akira Kurosawa. O cineasta japonês 黒澤 明 nasceu em Tóquio em 23 de Março de 1910 e morreu em Setagaya em 6 de Setembro de 1998. Em exatos 50 anos de carreira realizou 31 filmes e conquistou o ocidente ao retratar a cultura japonesa, provando através de seu olhar que seres humanos são feitos da mesma cepa em qualquer canto do mundo e sofrem com os mesmos questionamentos éticos e existenciais. Dizia Kurosawa, “O ocidental e o japonês convivem lado a lado em minha mente, sem o menor sentimento de conflito”.
Muitos de seus filmes ganharam releituras ocidentais, mas os originais continuavam superiores provando que no cinema não bastam boas histórias e roteiros. Perfeccionista e de gênio forte, o “Imperador” do cinema tinha talento acima da média e influenciou cineastas do mundo todo. Foi mais reconhecido no ocidente que em sua terra natal, onde as comemorações pelo centenário de seu nascimento foram tímidas.
Até o próximo domingo alguns de seus melhores filmes estarão comentados aqui, com link para baixar. Divirtam-se!