Arquivo | semana clint eastwood RSS for this section

Fim da Semana Clint Eastwood e resultado da enquete

.

A Semana Clint Eastwood e a nossa homenagem aos 80 anos desse fantástico diretor, chegou ao final. Fizemos uma enquete, que ficou na coluna da esquerda do blog, perguntando qual filme preferido de Clint. O resultado foi: Menina de Ouro 35% – Sobre Meninos e Lobos e Gran Torino 18% – As Pontes de Madison 12% e Outros 18%. Entre os filmes citados na opção Outros estão Invictus, Coração de Caçador e Um Mundo Perfeito. Os comentários e críticas dos sete filmes ficam no arquivo juntamente com os links para baixar. Na minha opinião ainda faltou Bird (cinebiografia sobre uma das paixões de Clint, o jazz) e Os Imperdoáveis (faroeste), dois gêneros não presentes entre os filmes da semana. Espero que tenham gostado.

.

Sobre Meninos e Lobos

.
Por Gustavo Catão
.
O título assusta. “Sobre Meninos e Lobos” soa, a príncipio, como algum filme cult de algum consagrado diretor estrangeiro e que, por alguma bagunça da distribuidora, foi parar no circuito principal. Mas “Mystic River” (que quer dizer “rio místico”, e é um nome dado a um rio na cidade americana de Boston) é mais um filme em que Clint Eastwood resolveu ir para trás das câmeras, desta vez para provar que também é capaz de um filme policial sério, sem apelar para a violência, o tiroteio, ou cenas chocantes.
A história, baseada em um livro de Dennis Lehane, fala de três amigos de infância, criados na cidade de Boston, e que passam por um drama que muda suas vidas. Um dos garotos é sequestrado por um homem fingindo ser policial e é levado para o meio do mato, onde o homem e mais um segundo abusam do garoto por vários dias. Isso acontece logo nos primeiros minutos do filme, e as evidências de que o segundo homem faz parte do clero da Igreja Católica incomodam algumas pessoas (pessoalmente eu acho que isso foi apenas uma maneira de explicitar o que ia acontecer ao garoto, em vista os escândalos de abusos sexuais dentro da Igreja Católica nos EUA, que os americanos, Protestantes em sua maioria, gostam tanto de lembrar, rotulando prontamente a Igreja Católica como um lar de pervertidos).
Mas, assim como eu, o filme deixa essa discussão de lado e pula muitos anos na história dos três amigos, para uma época em que eles são trabalhadores e pais de família. Os três perderam o contato e se consideram apenas conhecidos até que uma tragédia os reúne novamente. A filha mais velha de Jimmy (Sean Penn) é assassinada e o detetive que acaba assumindo o caso é o amigo Sean (Kevin Bacon). Porém, na mesma noite do assassinato, Dave (Tim Robbins), o que havia sido molestado, volta para casa sujo com o sangue de outra pessoa, após ter se encontrado com a filha do amigo em um bar. Ele diz à sua mulher que foi assaltado, mas seu álibi muda a cada momento do filme, levantando fortes suspeitas sobre ele. Os três amigos então acabam se aproximando novamente, à medida que Jimmy tenta lidar com sua perda, Dave tenta consolar o amigo, e Sean procura pelo culpado. Os dias passam e a falta de suspeitos leva Jimmy, ex-presidiário e amigo de alguns tipos “suspeitos” do bairro, a procurar justiça com as próprias mãos. Ele conduz uma investigação paralela, questionando os que viram sua filha por último, ajudado por seus amigos criminosos. Sean tenta impedir o amigo, mas a falta de provas, aliada a seus problemas pessoais e a sua relação com a vítima, atrapalham o andamento do caso. Muitas vezes ele questiona suas investigações e entra em conflito com as idéias de seu parceiro Whitey (Laurence Fishburne). Mas Dave também tem seus problemas. A presença de seus amigos o leva de volta ao abuso sofrido quando criança, e ele começa a apresentar um comportamento estranho, levantando a suspeita de todos. A história então se desenrola em direção a um final sóbrio e realista, sem grandes lições de moral.
“Sobre Meninos e Lobos” foi eleito pela National Board of Review of Motion Pictures (a associação críticos americana) como melhor filme de 2003. Também pudera, além do nome de Clint Eastwood, o filme conta com estrelas como Sean Penn, Kevin Bacon e Tim Robbins, em excelentíssimas atuações. Sean Penn se destaca dos outros dois no papel do pai desconsolado. Ele alterna momentos de raiva e sofrimento em um dos melhores papéis de sua carreira. Robbins enfrenta a responsabilidade de interpretar um homem perturbado. Convence mas não surpreende, mas em vista do peso do papel, está muito bem. Kevin Bacon tem o personagem mais clichê dos três, o do detetive de polícia americano. Também está bem, mas não faz nada demais, assim como Fishburne, que se mantém humildemente no papel de coadjuvante. As esposas dos personagens, interpretadas por Laura Linney (mulher de Jimmy) e Marcia Gay Harden (mulher de Dave), também ficam ali, meio à margem do filme. A mulher de Sean aparece dois minutos no filme.
“Sobre Meninos e Lobos” é muito bom por se tratar de um drama sério, com personagens profundos e verossímeis. Os acontecimentos são mostrados sem frieza, cabendo aos personagens transmitir o drama envolvido. Apesar da leve falha na trilha sonora, composta pelo próprio Eastwood, e que algumas vezes destoa do filme, esse é um excelente drama, que com certeza vale a pena ser assistido. Drama/Policial, 137 min. Baixe esse filme.
.
.

Cartas de Iwo Jima

.
Por Rodrigo Cardia
.
Cartas de Iwo Jima é o complemento de A Conquista da Honra, ambos lançados em 2006. Clint Eastwood decidiu abordar a Batalha de Iwo Jima, em 1945, meses antes do fim da Segunda Guerra Mundial, sob os ângulos de cada lado envolvido na disputa, e assim produziu dois filmes: A Conquista da Honra nos apresenta a visão estadunidense, enquanto Cartas de Iwo Jima nos mostra o ponto de vista japonês sobre o episódio.
O filme se inicia com uma expedição arqueológica à ilha de Iwo Jima, em 2005. Os pesquisadores descobrem, em uma caverna, diversas cartas enterradas, escritas pelos soldados japoneses 60 anos antes e que jamais chegaram a seus destinos. A partir delas, é contada a história mostrada pelo filme – assim, Cartas de Iwo Jima também é uma aula de como se faz História: afinal, é com base em documentos, em vestígios deixados pelas pessoas que viveram no passado, que os historiadores o estudam e explicam o que aconteceu.
Além disso, as cartas também são fundamentais para explicar o porquê de alguns personagens cruciais na história estarem presentes na ilha, e também o que eles viveram antes de serem mandados ao campo de batalha – o que explica muitas de suas atitudes durante o desenrolar do filme. Assim, eles são mostrados não como simples soldados a serviço do Imperador Hiroito (ou Hirohito), mas também como seres humanos, que tinham suas famílias, suas “vidas normais”, das quais foram afastados pela guerra. Como Saigo (Kazunari Ninomiya), que teve de deixar a esposa grávida: esta foi parabenizada pelas vizinhas por seu marido “ter a honra de servir o país”, assim como o próprio disse no momento em que recebeu a convocação. Afinal, defender o Japão e o Imperador, inclusive com o sacrifício da própria vida, devia ser visto desta forma: como a missão mais honrosa que qualquer japonês poderia cumprir.
A experiência do tenente-general Tadamichi Kuribayashi (Ken Watanabe), que antes da guerra estudou nos Estados Unidos e foi enviado a Iwo Jima por “ter conhecimento do inimigo”, faz com que ele questione muito alguns valores tradicionais da cultura japonesa, como o suicídio pela honra: para ele, mais vale um soldado se retirar de um combate praticamente perdido e manter a vida (para que possa continuar lutando em outra frente) do que perdê-lo “mas manter a honra”. Some-se a isso o fato de que Kuribayashi vive um “conflito interno”: por ter feito muitos amigos nos EUA, não vê o país como “inimigo”, mas apenas como adversário, cujos soldados também têm suas histórias de vida, suas famílias, como os japoneses. Assim, muitos de seus comandados acabam vendo-o com desconfiança, por serem imbuídos de uma visão de mundo que ligava “patriotismo” a “dar a vida pelo Imperador”, “jamais se entregar” (ainda mais que realmente a opção de se render nem sempre é a melhor) e não ter qualquer consideração pelo inimigo.
Aliás, quanto ao “patriotismo”, o filme também demonstra como o nacionalismo exacerbado serve, em qualquer país, aos que detém o poder: qualquer ordem não-cumprida é vista como “falta de patriotismo”, ainda mais em tempos de guerra. Que o diga o soldado enviado a Iwo Jima por “insubordinação”, que no caso dele foi não ter matado um cão que latia à noite, em consideração às crianças que tanto gostavam dele e não entendiam que os latidos eram “anti-patrióticos”.
Cartas de Iwo Jima, definitivamente, é um filme que merece muito ser visto. Tanto por nos fazer adentrar no dia a dia dos que combatiam em uma inóspita ilha, e por mostrar como a guerra é terrível, triste, e destroi vidas não apenas nos campos de batalha, como também dos entes queridos que não chegam a pegar em armas. Tudo bem, um filme que mostre isso não é nenhuma novidade, mas se levarmos em conta que os homens seguem se matando por motivos estúpidos, nunca é demais. Drama, 140 min. Baixe esse filme.
.
.

As Pontes de Madison

.
Por Rodrigo Carreiro
.
Histórias de amor são quase sempre recebidas com reticência pela turma dos cinéfilos, especialmente se filmadas em Hollywood, por causa da grande quantidade de açúcar que os diretores costumam agregar à receita. Há realmente poucos, bem poucos longas metragens que abordam o assunto de maneira madura e sensível. “As Pontes de Madison” (The Bridges of Madison County, EUA, 1995) está entre esses filmes. Talvez não seja a melhor obra filmada pelo cineasta veterano, mas está no páreo deste troféu imaginário, por ser um dos romances mais tocantes e melancólicos jamais levados à tela grande.
O filme tem todas as principais características das obras do Eastwood na sua melhor fase: técnica refinada que jamais chama a atenção para si (repare na belíssima fotografia das paisagens rurais do condado de Madison, no Iowa, e na seqüência primorosa do jantar à luz de velas, próxima do final do filme), grandes atuações cheias de sutilezas dos atores nos papéis centrais e roteiro perfeito (de Richard LaGravenese), com diálogos de simplicidade cativante que, no entanto, revelam uma compreensão profunda do desejo, da culpa e da paixão de cada componente do casal.
Para começar, “As Pontes de Madison” é uma raridade devido a uma peculiaridade: a seqüência de abertura revela todo o filme, inclusive o final, já que é narrada em flashback. O filme abre nos dias atuais. Michael (Victor Slezak) e Carolyn (Annie Corley) estão reunidos para serem comunicados do testamento da mãe. Ao receberem os objetos pessoais da mulher, descobrem cartas de um suposto amante. Chocados, os dois vasculham os objetos e acabam encontrando a chave de um baú. Dentro, três cadernos que narram em minúcias a aventura romântica de quatro dias vivida por Francesca (Meryl Streep) com um fotógrafo da revista National Geographic, Robert Kincaid (Clint Eastwood). O fato tinha ocorrido em 1962, pouco mais de 30 anos antes.
Francesca, uma italiana de Bari que conheceu o marido Richard na guerra e devotou duas décadas de sua vida ao sujeito desligado e pouco carinhoso, está sozinha na fazenda dos Johnson. Richard e os dois filhos foram passar quatro dias em uma feira rural. Logo no primeiro dia, o fotógrafo aparece na estrada. Está perdido, e pede informações sobre como chegar a uma famosa ponte bucólica da cidade. Ela tenta explicar o caminho, ele não entende, e ela se oferece para ir junto. Afinal, não tem nada o que fazer durante o dia. Bastam alguns minutos de conversa, dentro do carro, para que Francesa, Robert e a platéia entrem em um estado de empatia quase mediúnica.
Ao optar por revelar ao leitor o final da história, já que sabemos que Francesca viveu com a família a vida inteira e escondeu tão bem o caso que ninguém jamais desconfiou de nada, Clint Eastwood toma uma decisão arriscada. Muita gente costuma mostrar desinteresse por filmes cuja trama é previamente conhecida. Não os cinéfilos de verdade. O filme é deles, e explica com uma narrativa concisa e tocante como duas pessoas podem ter se amado ardentemente, durante 30 anos, e permanecido separadas. O filme responde a essa questão com absoluta perfeição. Não há nenhuma nota fora do lugar. Nenhuma.
Esta é uma história de atores. Meryl Streep, conhecida pela perfeição nos sotaques, entrega aqui uma das interpretações mais complexas e vitoriosas da carreira. Não são apenas as palavras – é algo mais profundo, algo que poucos atores conseguem transmitir, com olhares, sorrisos e pequenos gestos. Há uma cena que serve como epítome da atuação de Streep, uma cena que acontece depois que ela já está irremediavelmente fisgada por Robert. Ele está de saída quando o telefone toca. É o marido de Francesca. Ela atende e conversa com ele, expressando com a voz alegria e saudade da família, enquanto olha a caminhonete de Robert se afastando e chora por dentro. Que cena linda.
A rigor, Meryl Streep é a dona do filme. O filme é narrado do ponto de vista de Francesca (claro, afinal é o diário dela que fornece a base narrativa). Robert, que é um mistério fascinante para Francesca, também o é aos olhos da platéia. Clint Eastwood se aproveita disso. Ele é um bom ator, embora não genial; ao lado de Meryl Streep, sua espontaneidade funciona à perfeição. Além disso, o personagem é o que se chama de reagente. Ele nunca toma a iniciativa, apenas espera pela ação de Francesca. Robert é um homem experiente, calejado. Quando percebe a atração mútua, avisa a Francesca para ter cuidado (“Talvez o encontro de hoje à noite não seja uma boa idéia”, diz ele, em certo momento, temendo a reação da cidade se descobrir a infidelidade da mulher). Robert nunca toma a iniciativa. Como ator, essa é a situação perfeita para Eastwood – deixar que Streep conduza o filme.
Ela o faz. A partir de Francesca, os amantes percorrem, em quatro dias, o arco completo de uma relação amorosa: empatia, atração, ansiedade, desejo, paixão, felicidade, angústia, desconfiança; sonho e realidade. Em outra cena, também ao telefone, ocorre o primeiro contato físico entre Francesca e Robert; enquanto fala, ela dá a volta na mesa, se posiciona atrás dele, e delicadamente ajeita a gola da camisa, tocando o pescoço e deixando a mão ficar parado por um instante, antes de seguir. A atuação de Meryl Streep complementa aquilo que as palavras – que são muitas, carregadas de humor sutil e excitação – não conseguem, sozinhas, dizer.
Há algo de “Casablanca” em “As Pontes de Madison”: o tema do sacrifício, que ressoa no final dos dois filmes e, aqui, é ainda mais emocionante. A linda seqüência que encerra o filme, a cena da despedida de Francesca e Robert, funciona em vários planos. É simbólica, pois envolve um crucifíxo que desempenha papel crucial, e não existe melhor símbolo de sacrifício do que uma cruz; é metafórica, pois acontece sob chuva, como se alguma divindade derramasse um rio de lágrimas pela impossibilidade de concretização de um amor tão puro e fulgurante; e é literal, quando a mão de Francesca agarra com força a maçaneta fria de metal do carro. Tome muito cuidado para não chorar.
Algumas pessoas podem se perguntar porque, sendo tão romântico e emocionante, “As Pontes de Madison” não cativou o público da mesma maneira que, por exemplo, o já citado “Casablanca”, alçado à categoria de mito cinematográfico. A resposta é simples: o filme de Clint Eastwood mostra um improvável romance de duas pessoas na meia idade, uma idade em que o público, domesticado pela indigência habitual de Hollywood, imagina que as pessoas já estejam anestesiadas em alguma espécie de menopausa coletiva. Há até aqueles que vêem no filme algum tipo de indecência, e o condenam arbitrariamente, como se amar, se apaixonar e compartilhar de momentos felizes fosse proibido àqueles com mais de 50 anos. Pobres coitados. Não sabem o que estão perdendo.
Drama/Romance, 135 min. Baixe esse filme.
.
.
Rodrigo Carreiro mantém o site Cine Repórter.
.

Coração de Caçador

.
Por Aritanã Dantas
.
Quando um diretor da envergadura de John Huston resolveu fazer um filme que se passa quase todo dentro de um barco a vapor, estrelado por dois nomes de peso de Hollywood (Humphrey Bogart e Katharine Hepburn), os produtores devem ter sonhado com montanhas de dinheiro fácil. Coitados. É louvável não querer filmar em estúdio, apesar de em 1951 um filme daqueles não ser nada fácil de ser captado em externas, mas filmar na África e levar toda a equipe e elenco de estrelas junto, só podia ser loucura!  O motivo colocado parecia ser dos mais louváveis: dar à obra cinematográfica uma dose cavalar de realismo. Mas por trás disso tudo estava o desejo mórbido de um diretor muito mimado: a necessidade de matar um grande elefante!
A direção maravilhosa e a atuação precisa de Clint Eastwood, fazem deste filme menos conhecido, um dos meus preferidos do velho cowboy. É ao mesmo tempo uma homenagem e uma crítica a um dos maiores diretores de todos os tempos, num filme ágil e que não toma partido, deixando o espectador pensar e escolher o seu lado na história. Legal reparar também na atuação de George Dzundza, no papel de guia de caça do diretor.
Detalhe: Talvez por problemas de direitos, os nomes foram trocados. Então John Huston é John Wilson, Humphrey Bogart é Phil Duncan, Katharine Hepburn é Kay Gibson, etc.
“White Hunter, Black Heart” (título original) teve o roteiro baseado no livro de Peter Viertel (co-roteirista) que acompanhou as filmagens de “Uma Aventura na África” (The African Queen) – filme do diretor John Huston. Huston é interpretado por Clint Eastwood em Coração de Caçador, filme que rendeu a Clint a indicação para Melhor Diretor no Festival de Cannes em 1990. Não venceu. Aventura, 110 min. Baixe esse filme e legenda.
.
.

Menina de Ouro

.
Por Maurício Alves
.
Maggie Fitzgerald (Hillary Swank) é uma mulher de trinta e um anos que procura um treinador que a ajude a cumprir o seu sonho de infância: ser pugilista profissional. Influenciado pelo seu amigo Scrap (Morgan Freeman), um velho pugilista, Frankie Dunn (Clint Eastwood) um treinador extremamente rigoroso aceita treiná-la. A relação entre ambos, que começa por ser de desconfiança, torna-se cada vez mais próxima. De combate em combate, o treinador vai descobrindo a enorme força de vontade da sua pupila. E esta, vai descobrindo que, por baixo da dureza de Frankie, existe um homem magoado com a vida.
Claramente inspirado no filmes de John Ford, apresenta situações nas quais Frankie é mostrado como o velho boxeador com um passado oculto, que o torna, ao mesmo tempo, amargo e com uma crença inabalável na força de valores que são sintetizados na tela pela perseverança de Maggie, personagem de Hillary, que não desiste de seus ideais por mais que seja desestimulada pelo próprio Frankie no início do filme.
Essa luta contra os obstáculos que a separam da realização de seu sonho, além de ser o fio condutor da história de Maggie, que é contada em off pelo personagem Scrap, magistralmente interpretado por Morgan Freeman, cumpre também a função de traçar um paralelo entre os três personagens principais. Deste modo, somos apresentados a Frankie Dunn, um homem em constante conflito com o passado, por meio das cartas que escreve à sua filha, sempre devolvidas ao remetente e cuidadosamente guardadas em uma velha caixa de sapatos. Assim como o personagem de Clint, Maggie também possui um passado perdido. O pai faleceu, restando-lhe a mãe e a irmã. O filme, ao modo dos clássicos de Ford, se desenrola em torno da luta pela superação vivida por todos os personagens principais.
Com o desenrolar do filme, somos levados a torcer por Maggie, por sua ascensão na carreira, narrada com cenas de várias lutas nas quais o conflito e a proximidade entre os personagens vão sendo mostrados num crescente que conduz de forma brilhante o espectador ao surpreendente desfecho. Em uma sequência narrada de forma extremamente crua, aprendemos aquilo que é descrito por Scrap em uma frase: “No boxe tudo acontece ao contrário.”
Em sua primeira luta internacional, Maggie recebe do treinador um robe no qual se lê um nome: «Mo Cuishle». O significado da expressão, como o espectador é levado a saber, é família. Sangue do meu sangue. Escrito em gaélico, língua antiga dos celtas, dos irlandeses, que tinham a família como valor primordial. Mas isso só é revelado na hora final por Frankie a Maggie, pelo «pai» à «filha». Um final que se situa entre os mais belos e amargos da história do cinema.
Million Dollar Baby (título original) de 2004, ganhou o Oscar de Melhor Filme, Diretor para Clint Eastwood, Atriz para Hilary Swank, Ator Coadjuvante para Morgan Freeman e ainda Globo de Ouro de Melhor Diretor e Atriz. Venceu também como Melhor Filme Estrangeiro no César (França), David di Donatello (Itália) e Academia Japonesa de Cinema entre muitos outros prêmios e indicações. Mereceu todos. Drama, 137 min. Baixe esse filme.
.
.

Gran Torino

.
Por Adriano Vilas Bôas
.
Uma pequena obra prima do cinema. Cada plano do filme fala como um quadro, têm-se a impressão de que o filme poderia ser contado através das fotografias, cena por cena.
A composição da paisagem fala por si só, os diálogos se apresentam como complementos do que já é dito, do que já transborda em cada fotograma.
Composição de planos esta, auxiliada pelos movimentos de câmera, que de tão sutis e precisos, evidenciam a devoção do diretor para com o cinema puro, onde a técnica está tanto em prol da história a ser contada, que acaba por se dissolver em poesia. Tudo isso, aliadao à trilha sonora de Jamie Cullum, com direito a música tema interpretada pelo próprio Clint.
As relações entre as personagens pintam a obra principal. Desta troca silenciosa e sincera, Clint nos apresenta o mundo de Walter Kowalski, ou melhor, como essa figura quase mítica ,encarnação de todos os personagens da carreira do ator, estão dissolvidos em um só. Num velho, que procura espaço num mundo que mudou sem antes pedir permissão a seu habitante mais antigo. Sendo este, o primeiro dos muitos ecos de “Onde os fracos não têm vez”, 2008, dos irmãos Coen.
Um filme que começa e termina com velórios, mas retrata muitas portas se abrindo. Temos um diretor muito consciente do fim de um ciclo, o término de uma era, onde somente o encontro entre o velho e o novo, entre Walter e Thao, são capazes de transformar o mundo. Temos muitas cenas onde nosso olhar é direcionado para a abertura de portas, do lado de dentro, como se junto dos personagens também recebêssemos as pessoas em nossa casa, em nosso repertório de imagens. São planos que clamam pelo encontro. Fronteiras entre vizinhos são quebradas, e uniões estabelecidas.
Quando Sue (em ótima performance de Ahney Her), afirma que gostaria que o pai fosse mais parecido com Walt, e este questiona a razão, a menina simplesmente afirma com ar de dúvida “because you´re american“, Walt se pergunta o que isso significa. Nenhum dos dois sabem o que significa ser americano hoje em dia. Walter, até então americano, representante da velha guarda tradicional de homens que foram para a guerra (Coréia, 1951) e trabalhavam nas grandes montadoras da Ford, símbolo este, representado pelo carro que dá nome ao filme. Carro este, produzido e dirigido pelo personagem, da fábrica até sua casa. Marco da prosperidade norte-americana nos anos 50 e seu “american way of life” tão difundido mundialmente. Nos EUA de hoje, Walt vê o bairro, antes lar de trabalhadores americanos, ocupado por imigrantes Hmongs, negros, chineses e mexicanos.
Difícil não estabelecer um paralelo entre o personagem de Walter Kowalski, com o Stanley Kowalski de Tenessee Williams, em “Um bonde chamado desejo”, romance de 1941 ,interpretado nos cinemas por Marlon Brando. Ambos são descendentes de imigrantes do fim do séx. XIX, mais especificamente de poloneses, são sucessores da geração que construiu as bases da nação que viria a vencer a Segunda Grande Guerra. Assim como Walt, Stanley fazia o tipo durão, patriota, republicano, dotado de uma ética própria e particular, alheio a tudo que lhe tira da rotina de trabalho árduo e pequenos prazeres com os amigos, seja o boliche para o segundo ou o bar para o primeiro.
Com a diferença de que o Kowalski de T. Williams fazia sentido no tempo-espaço que ocupava (anos 40), já o Kowalski de Clint tenta recuperar o espaço que um dia ocupou, nem que para isso precise alcançar a tão temida e ao mesmo tempo almejada, redenção.
Através da troca com Sue, e mais precisamente com Thao, que Walt se vê ainda como ser humano, como um tipo de alteridade tardia ou nostálgica, através do olhar desses dois jovens, Walt se vê obrigado a enfrentar sua existência tal qual ela se apresenta no presente. Desafia-se a estimular a última faísca de vida que lhe resta de um passado de dor e arrependimento.
Talvez por isso insista tanto em ensinar um ofício a Thao, jovem tímido e inexperiente, que vive sendo perturbado por seu primo e sua gangue. Walt, dá as ferramentas para que o jovem construa um mundo novo, um mundo onde Thao e sua família possam viver em paz, cultivando o pouco de identidade e verdade que faz dos EUA da era Obama, um país multicultural, que respeita e exalta as diferenças.
Como num túnel do tempo, Walt desejava poder, através de seu Gran Torino, 1972, voltar ao tempo em que podia simplesmente deslizar pelas estradas a beira-mar, sentindo a briza no rosto, com a segurança que o Estado lhe dá, e a constatação tardia da beleza que aqueles instantes proporcionavam. Drama, 117 min. Baixe esse filme.
.
.
.
Adriano Vilas Bôas escreve para o site Figurama.