A melhor sequência final

Bertolucci, Brando e Schneider em Paris, durante as gravações da sequência final de Último Tango em Paris

Ainda não ousei escrever sobre o Último Tango Em Paris (1972). Tem uma crítica já publicada do filme aqui no Pipoca Comentada, mas é do jornalista e cineasta gaúcho Carlos Gerbase. Mas amo tanto esse filme, tanto, que decidi escrever sobre ele aos pedaços. Vou dividi-lo em partes, como faria Jack… Até porque se fosse escrever tudo que tenho vontade o post não teria fim.

Quem acha Último Tango em Paris erótico ou até pornográfico talvez não tenha prestado atenção na profundidade e evolução dos personagens, da história ou nos diálogos. A maior nudez é psicológica e a cena mais agressiva, acho, é um monólogo (um dos melhores de toda a história do cinema) de Marlon Brando diante do corpo da esposa morta. Mas vamos ao que interessa.

Não, não vou falar sobre a cena da manteiga, mas sobre a sequência final que é de fazer perder o ar e querer morrer, e justifica o título do filme.

Paul (Marlon Brando) é um americano dono de um pequeno hotel que mora em Paris há vinte anos e acaba de ficar viúvo — aliás, morbidamente, ele ainda nem enterrou a esposa que se suicidou — e Jeanne (Maria Schneider) é uma jovem, noiva de um cineasta moderninho com síndrome de Godard. Paul e Jeanne viveram um caso tórrido e inusitado. Por dias se encontraram num apartamento quase vazio sem saberem seus nomes ou quem eram, apenas pelo prazer do sexo casual. Mas se apaixonaram, cada um a sua maneira, e tomaram suas decisões.

Na sequência final ele a encontra caminhando na rua e vão a um clube de tango onde está acontecendo um concurso, eles se embebedam, atrapalham o concurso, ela o masturba enquanto se despede dele. Ele, achando que está recomeçando sua história com ela está se apresentando como ainda não tinha feito, a persegue pela rua até sua casa como um louco. Jeanne no instante final já está calculando como se livrar dele. E se livra. O detalhe do chiclete é fenomenal, é a tradução da natureza irreverente do personagem, e o último olhar de Brando apunhala o coração da gente. Morri junto com ele todas as vezes que assisti e continuarei morrendo, porque simplesmente não resisto. Parece papo de viúva à beira do caixão… “Eu quero ir junto com ele”… e é exatamente isso. Até porque, instantes antes eu vi e ouvi Brando me dizer “eu amo você”. Como não querer ir junto?

Há boatos sobre a manipulação de Bernardo Bertolucci com os atores, Brando e Schneider que, dizem, se arrependeram do filme. No caso de Maria Schneider, ela declarou ter sido o filme o causador de sua decadência e dependência com drogas — o Gerbase já comentava isso na sua crítica, escrita há mais de dez anos. Achei forçação de barra. Se é verdade, além de não entender como um ator/atriz se arrepende de um filme como Último Tango Em Paris, percebo a minha natureza maligna ao pensar “ainda bem que se arrependeram depois do filme pronto e da repercussão causada”. Se Bertolucci é um manipulador não sei, mas gênio sei que é.

Cena final (a sequência foi retirada do youtube):

Os Miseráveis

Após cumprir dezenove anos de prisão com trabalhos forçados, por ter roubado comida, Jean Valjean (Liam Neeson), em liberdade condicional, foge, e é acolhido por um bispo (Peter Vaughan). No meio da noite ele rouba a prataria e agride o bispo. Quando Valjean é preso com os objetos roubados, o compassivo bispo mente dizendo à polícia que lhe deu a prataria. Este gesto nobre devolve a fé que Valjean havia perdido. Anos mais tarde, ele está completamente regenerado e usa outro nome, é prefeito e principal empresário em uma pequena cidade, quando Javert (Geoffrey Rush), um guarda da prisão, o reconhece e passa a persegui-lo.

Neste meio tempo uma empregada de Valjean, Fantine (Uma Thurman), é despedida. Sem saída, passa a prostituir-se e é presa. Valjean usa sua autoridade para libertá-la e a leva para casa. Ela agora é mãe, mas está à morte e obtém de Valjean a promessa de que cuidará de sua filha. Antes de buscar a menina no bordel, ele se sente moralmente obrigado a revelar sua identidade à polícia, para evitar que outro homem seja preso no seu lugar. Javert volta a perseguir Valjean, que foge para Paris e passa a criar a menina como se fosse sua filha.

O filme (1998) é uma adaptação direta da obra Les Misérables, do escritor francês Victor Hugo, publicada em 1862, que teve inúmeras adaptações para o teatro e cinema. O diretor Bille August, vencedor de duas Palmas de Ouro, caprichou no elenco e na produção, mas o filme não funciona como deveria.

Até Geoffrey Rush, vencedor do Oscar de Melhor Ator por Shine – Brilhante, está inexpressivo, e é do seu personagem a resolução final da história no filme que muda completamente o sentido da obra. Mas mesmo que se tenha lido o livro ou se saiba que esse não é o final original da história, ainda assim o filme vale a pena. Faltou, na minha opinião, a cena inicial do roubo do pão que dá sentido ao personagem principal. Os Miseráveis é uma história universal e envolvente que deve ser conhecida por todos.
Drama, 131 min. Baixe esse filme.

Frankie e Johnny

Porque estamos na lua cheia e as noites são mais inspiradoras, fiquei a madrugada passada ouvindo músicas sobre a lua. E há sempre duas dessas canções que ouço insistentemente nas madrugadas lunares… Melodia Sentimental (música de Heitor Villa-Lobos e poema de Dora Vasconcelos, é parte integrante da obra A Floresta do Amazonas) e Clair de Lune (terceiro movimento da Suite Bergamasque por Claude Debussy, uma representação de piano de um poema de Paulo Verlaine).

Aí, que Clair de Lune me lembra sempre o filme Frankie e Johnny e da última vez que o assisti fiquei ouvindo a música sem parar o resto da semana. Sanidade? Não trabalhamos. Decidi resenhar/comentar sobre o filme, coisa que não faço já tem um tempinho (tempão, na verdade) e decidi finalmente refazer o layout do Pipoca Comentada e tirá-lo do ostracismo e aqui estamos.

Frankie e Johnny (1991) é um desses filmes aparentemente bobos que possuem uma riqueza de detalhes e que a história te pega. Pegou a mim, pelo menos. Primeiro porque a parceria de Michelle Pfeiffer e Al Pacino nesse filme só não supera a de Meryl Streep e Clint Eastwood em As Pontes de Madison, eles passeiam pelo filme e te levam junto. Segundo porque o diretor Garry Marshall, apesar de nenhum sucesso de crítica ou prêmio na carreira, já fez filmes muito conhecidos (bobos, mesmo) do grande público desses fáceis de “digerir”, como Uma Linda Mulher (Pretty Woman, 1990) e Noiva em Fuga (Runaway Bride, 1999), os dois com Julia Robers e Richard Gere e Diário de Uma Princesa (1 e 2) com Anne Hathaway e Julie Andrews. Meio decepcionante, né? Eu acho.

Porém, Marshall também dirigiu um filme que desconheço quem não goste ou não tenha se emocionado que é Simples Como Amar (The Other Sister, 1999) com Juliette Lewis e Diane Keaton. Ou seja, ele pode não ser um diretor extraordinário, mas dentro de sua medianice de vez em quando acerta. E acertou em cheio em Frankie e Johnny (trailer), disparado seu melhor filme. Leia Mais…

Thelma & Louise

Por Lola Aronovich
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Thelma & Louise está completando vinte anos de vida, e por isso a Vanity Fair escreveu uma longa reportagem sobre o filme. Infelizmente só dá pra ler um pedacinho. Mas o que se pode ler é bem mais saboroso que o comentário do diretor Ridley Scott feito pro dvd em 97 (é, eu ouvi inteirinho!). Por exemplo, algumas atrizes que foram pensadas para o papel de Thelma ou Louise antes de Geena Davis (Thelma) e Susan Sarandon (Louise) fecharem: Holly Hunter, Frances McDormand, Jodie Foster (que, diante da demora, foi fazer Silêncio dos Inocentes), Michelle Pfeiffer, Meryl Streep, Goldie Hawn.

O papel do Brad Pitt foi originalmente conseguido pelo William Baldwin, só que ele desistiu pra fazer Cortina de Fogo. Levante a mão quem acha que Brad está muito mais bonito hoje que vinte anos atrás. No início, Ridley (Alien, Blade Runner, Gladiador) iria apenas produzir a obra da roteirista Callie Khouri, que é do Texas (e depois, ao ganhar o Oscar por este roteiro muito bem amarrado, disse ao público: “Vocês queriam um final feliz? Tá aqui o seu final feliz”. De fato, é tão raro roteiristas mulheres ganharem o Oscar — isso só ocorreu em 9% das vezes, e esse número inclui times de roteiristas, ou seja, homens e mulheres — que uma façanha dessas precisa ser comemorada). Leia Mais…

Malena

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Por Rodrigo Carreiro
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Se Giuseppe Tornatore conhecesse um pouco mais a cultura brasileira, poderia ter traído o fiel colaborado e mestre supremo das trilhas sonoras, Ennio Morricone. Do lado de cá do oceano Atlântico, existe uma música muito popular, que se encaixa perfeitamente no enredo proposto pelo cineasta italiano em “Malena” (Itália, 2000). Chama-se “Geni e o Zepelim”, e foi composta por Chico Buarque. Todo mundo conhece a cantoria: “Joga pedra na Geni…”. Troque o nome da garota por Maddalena e você saberá exatamente do que trata o filme de Tornatore, um exemplar clássico do longa-metragem adorado pelo público e torpedeado pela crítica.

A razão principal do massacre à obra de Giuseppe Tornatore é a repetição de certos temas já presentes no maior sucesso do cineasta, o melodrama de 1988 “Cinema Paradiso”. Mais uma vez, o diretor italiano celebra o passado idílico das cidadezinhas mediterrâneas européias e o amor pelo cinema, em uma história limpa e simples, narrada com afeto e uma dose extra – talvez excessiva – de nostalgia. Maddalena (Monica Belluci, em arrancada fulminante rumo ao título informal de mulher mais bela do planeta) não é a protagonista, mas é o centro do universo erguido por Tornatore na pequena cidade da Sicília onde, em 1941, se passa o longa-metragem. Leia Mais…

Eternamente Pagu

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Fins dos anos 20, Pagu (Carla Camurati) ainda não tem vinte anos e já convive nos meios intelectuais de São Paulo e encanta a todos, da mesma forma que escandaliza os conservadores. É apresentada aos modernistas, liderados por Oswald de Andrade (Antônio Fagundes), brilhando entre estrelas não menos cintilantes como Tarsila do Amaral, Mario de Andrade e Anita Malfatti. Pagu e Oswald se apaixonam, casam, têm um filho, militam no Partido Comunista, fundam um jornal. Pagu vai a Argentina, onde encontra Luiz Carlos Prestes. Participa de uma greve em Santos e é presa pela primeira vez. Em seguida, parte numa viagem pelo mundo, deixando Oswald e seu filho Rudá. Sempre convivendo com artistas e militantes de esquerda e participando de manifestações e enfrentamentos com a polícia.

De volta ao Brasil, passa a viver modestamente com a irmã Sidéria (Nina de Pádua) e o filho. Presa outra vez por cinco anos, sente na pele o horror e a violência do Estado Novo getulista. Foge, tenta reconstruir sua vida com o novo companheiro, Geraldo Ferraz, nova prisão e castigos por insubordinação. Leia Mais…

As Horas

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“Examine por um momento uma mente comum em um dia comum. A mente recebe uma miríade de impressões – triviais, fantásticas, evanescentes, ou gravadas com a agudeza do aço. De todos os lados as impressões chegam, como uma chuva incessante de átomos; e quando caem, tomam a forma da vida de segunda-feira, terça-feira, e o modo desta chuva de impressões é diferente de outra; (…) A vida não é uma série de lampiões simetricamente arrumados; a vida é um halo luminoso, um envoltório semi-transparente que nos envolve do início da consciência até o fim.” (Virginia Woolf).
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Em 1923, Virginia Woolf (Nicole Kidman) está começando a escrever seu livro, “Mrs. Dalloway” (lançado em 1925) sob os cuidados de seus médicos e familiares no subúrbio de Londres. Em 1949, Laura Brown (Julianne Moore) está no subúrbio de Los Angeles tentando preparar um bolo para o aniversário de seu marido ao mesmo tempo em que está ocupada, lendo o livro escrito por Virginia. Nos dias atuais, Clarissa Vaughn (Meryl Streep) está em Nova York preparando uma festa para seu melhor amigo, um famoso autor que está morrendo de AIDS.

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