Tag Archive | argentina

A História Oficial

.
No último ano da ditadura militar argentina, 1983, Alicia (Norma Aleandro) e seu marido Roberto (Héctor Alterio) vivem tranquilamente com sua filha adotiva, Gaby (Analia Castro), de cinco anos, em Buenos Aires. Alicia é professora de História e ignora por completo tanto a violência cometida pelos militares quanto o envolvimento de seu marido com a elite corrupta que sustenta e se beneficia do regime. Após o reencontro com uma velha amiga Ana (Chunchuna Villafañe), recém-chegada do exílio, Alicia começa a tomar conhecimento da crueldade do regime militar argentino, passando a questionar a chamada “História Oficial” ensinada por ela em sala de aula.
Entre os questionamentos de Alicia surgem dúvidas sobre os pais biológicos de Gaby, trazida recém-nascida para casa por Roberto. Ela inicia uma investigação que a leva a hospitais insalubres, à igreja frequentada pela família, onde se depara com o silêncio e omissão do padre e, finalmente, ao encontro com as Mães da Praça de Maio, onde se depara com a avó biológica de sua filha.
Filmado em 1985, logo após o final da ditadura, recebeu ao todo dezesseis prêmios. Desses, treze internacionais, incluindo Globo de Ouro e Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, Prêmio do Júri e Melhor Atriz para Norma Aleandro no Festival de Cannes.
O diretor, Luis Puenzo (indicado a Melhor Diretor em Cannes e ao Oscar de Melhor Roteiro Original juntamente com Aída Bortnik), temia por sua segurança e pretendia filmar o longa em segredo, usando câmeras escondidas de 16 mm, mas o regime militar caiu pouco antes do roteiro ser concluído. O filme foi inteiramente rodado em Buenos Aires.
Destaque para a fotografia criativa de Felix Monti, que não envelheceu, e a trilha sonora envolvente de Atílio Stampone, com um tema que lembra, distantemente, um tango em contraposição a cantiga infantil de Maria Elena Walsh.
A História Oficial é um filme preciso, objetivo, cirúrgico. Nada é supérfluo, panfletário ou exagerado. Não há política explícita, não há cenas de torturas e nem militares fardados. Este é um roteiro feito para os atores, sustentado nas atuações espetaculares de Héctor Alterio e Norma Aleandro, os mesmos de O Filho da Noiva. Um filme real e emocionante.
A junta militar comandada pelo general Jorge Rafael Videla depôs a presidente Isabel Perón em 24 de março de 1976. Durante o governo militar, o parlamento foi dissolvido; sindicatos, partidos políticos e os governos das províncias foram banidos; e, naquilo que ficou conhecido como Guerra Suja, entre 9 e 30 mil “subversivos” desapareceram.
Como muitos artistas progressistas de seu país, a atriz Norma Aleandro foi obrigada a se exilar durante o regime militar. Primeiro foi para o Uruguai e mais tarde para a Espanha. Ela retornou logo após a queda do regime militar em 1983. Sobre sua personagem no filme, Norma Aleandro comentou que “a busca pessoal de Alícia é também a busca de minha nação pela verdade sobre nossa História. O filme é positivo no sentido de que demonstra que ela pode mudar sua vida apesar de tudo que vai perder”. Drama, 112 minBaixe esse filme.
.
Disponibilizo abaixo todo o filme, sem legendas e em treze partes. Mesmo para quem não entende muito bem espanhol, não é difícil acompanhar a história:
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
Nota: Recentemente o que parecia ser uma suposição, uma leitura ficcional da realidade argentina durante o regime militar, relatada nesse filme, parece ter se concretizado como fato real. A fundadora do movimento Avós da Praça de Maio acredita ter encontrado sua neta que fora adotada pelos donos do jornal Clarín após seus pais terem sido sequestrados pelos militares. Leia aqui sobre o caso.

XXY

.
Alex (Inés Efron) é uma adolescente de 15 anos que nasceu com os órgãos genitais de ambos os sexos e que toma remédios para inibir o surgimento de suas características masculinas. Seus pais, Kraken (Ricardo Darín) e Suli (Valeria Bertucelli) não conseguiram decidir pela cirurgia que corrigiria sua ambigüidade genital quando ainda era um bebê e se isolaram com a filha num vilarejo litorâneo do Uruguai. A atração sexual entre Alex e o filho adolescente de um casal que aparece para visitar a família, a confronta com a sua realidade e coloca em xeque a decisão de seus pais no passado.
A Síndrome de XXY, também conhecida como Síndrome de Klinefelter, atinge homens que têm um cromossomo X a mais – e que desenvolvem testículos menores e produzem menos testosterona na juventude, o que pode lhes dar aspecto feminino. Não é o caso da personagem do filme. O título parece mesmo ser uma provocação, um convite ao debate.
Ganhou o prêmio da crítica em Cannes e o Goya de melhor filme estrangeiro de língua espanhola. Foi escolhido para representar a Argentina ao Oscar de melhor filme estrangeiro de 2008, mas não chegou a ficar entre os indicados.
Esse é o primeiro filme da cineasta argentina Lucía Puenzo, filha de Luis Puenzo – diretor do premiado A História Oficial. Lucía aborda um tema bastante controverso e considerado tabu com extrema delicadeza e sensibilidade sem cair na armadilha piegas de apresentar uma solução para o problema. “Não queria falar de um diagnóstico preciso. O título do filme é uma metáfora da intersexualidade em geral. O meu trabalho não é um documentário, mas uma história de ficção.” – declarou a diretora.
Filme corajoso, quase cru na abordagem do tema sem ser grosseiro. Fotografia belíssima e um elenco espetacular. Mais um bom filme argentino. Drama, 86 min. Baixe esse filme.
.
.

O Mesmo Amor, A Mesma Chuva

.
Na Argentina de 1980, Jorge (Ricardo Darín) é um jornalista que escreve contos românticos para uma revista. Ele é talentoso, uma promessa literária, mas receoso demais em mergulhar de vez no mundo da literatura. Numa noite tempestuosa, Jorge encontra Laura (Soledad Villamil), uma atriz que ganha a vida como garçonete, e fica fascinado ao vê-la na chuva. A seguir, ele assiste a um curta-metragem adaptado de um de seus contos onde Laura é a protagonista.
Eles se aproximam e vivem um romance durante um ano e meio. O namoro dos dois, que atravessa a Guerra das Malvinas, o fim da ditadura militar e o início do governo Alfonsín, se desgasta pela infidelidade dele e é rompido. No final dos anos 90, Jorge é um crítico de arte desiludido, corrompido, e Laura uma bem-sucedida produtora cultural e – como o próprio nome do filme entrega – eles se reencontram.
O roteiro acompanha a história dos protagonistas por vinte anos e vai mostrando com extrema habilidade as transformações que os fatos sociais, fracassos e realizações fazem na história de cada um. Tanto personagens como situações são críveis demais e poderiam fazer parte da vida de qualquer pessoa. Esse é, talvez, o maior mérito do cineasta Juan José Campanella: fazer poesia do banal, do corriqueiro, e nos transportar para dentro de seus filmes.
Foi lançado no Brasil apenas em vídeo e depois do filme posterior do diretor, O Filho da Noiva, 2001. É o primeiro filme da parceria do diretor com Ricardo Darín, que rendeu uma espécie de trilogia urbana, juntamente com o especialíssimo O Filho da Noiva e Clube da Lua (2004).
El Mismo Amor, la Misma Lluvia é uma história de amor sem fantasias, que mais parece uma história que vivemos ou vimos acontecer. Não há como não se emocionar. Sensibilidade ímpar sem deixar de criticar os fatos da história recente da Argentina. No tom exato, sem carregar nas tintas. Comédia romântica, 116 min.  Baixe esse filme.
.
.