Tag Archive | niara de oliveira

A Caminho de Kandahar

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Nafas (Niloufar Pazira) é uma jornalista afegã que vive e trabalha como refugiada no Canadá. Ela recebe uma carta de sua irmã menor que ficou no Afeganistão, avisando que decidiu se suicidar antes do próximo eclipse solar. A irmã menor foi mutilada com uma “boneca minada” (*) e perdeu as duas pernas. Nafas decide fazer o caminho de volta e entrar em Kandahar sem ser notada, atravessando a fronteira entre o Irã e o Afeganistão para tentar salvar sua irmã.

Num país dominado desde 1996 pelo Taleban (baseado no fundamentalismo islâmico), as mulheres não possuem direito algum. São obrigadas a usarem a burka (véu escuro que as cobre da cabeça aos pés) e nem mesmo podem receber socorro médico sozinhas. Leia Mais…

Dançando no Escuro

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Selma Jezkova (Björk) é uma imigrante tcheca, mãe solteira de um menino de doze anos que foi morar numa cidade do interior dos Estados Unidos. É operária numa fábrica, está ficando cega e sabe que seu filho Gene (Vladan Kostig) herdou a doença. A única esperança para o garoto é submeter-se a uma operação. Selma precisa levar uma vida de pobreza miserável, descuidar de si até o limite do desespero para poder pagar a cirurgia.
Seus vizinhos Bill (David Morse) e Linda (Cara Seymour) juntamente com sua colega de fábrica Kathy (Catherine Deneuve), a ajudam no que é possível. Selma é apaixonada pelos musicais hollyoodianos e suaviza os momentos difíceis se imaginando dançar os números musicais dos filmes. Quando seu vizinho Bill se vê em dificuldades financeiras, rouba o dinheiro que Selma tinha economizado e esse é o ponto de partida para tornar o seu drama ainda mais trágico.
A estória do filme pode não ser das mais originais, mas emociona a cada minuto. As partes musicais são as únicas alegres e são devaneios da personagem principal, que para fugir do mundo real, pensa na vida como um musical, com canções e coreografias de uma estranha, ambígua e triste beleza. As músicas são todas belíssimas, e foi uma delas, ”I’ve Seen It All”, que deu a única indicação do filme ao Oscar.
Dancer In The Dark (título original) foi indicado ao Globo de Ouro também por Melhor Canção Original e Melhor Atriz em Drama para a cantora islandesa Björk, premiada em Cannes por sua atuação.
A direção do dinamarquês Lars von Trier se priva de tecnologia. O longa foi filmado em câmera digital pelas mãos do próprio diretor. Ainda assim, tem uma bela fotografia e é reconhecidamente um filme de arte que muitos vão achar chato, longo e sem ação. Mas é inegavelmente um filme bonito, sensível e verdadeiro. Trier assina além da direção, o roteiro, a fotografia e ele mesmo compôs a maioria das canções. O denominado filme mais triste da história, é realmente muito triste, mas incrivelmente brilhante. Drama Musical, 140 min. Baixe esse filme.
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Betty Blue

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Zorg (Jean-Hughes Anglade), 35 anos, trabalha como zelador num conjunto de 500 bangalôs numa praia no sul da França. Ele leva uma vida calma, escrevendo no tempo de folga até aparecer Betty (Béatrice Dalle), 18 anos, bela, sensual e liberada com um temperamento imprevisível e instável. Após uma briga com o chefe de Zorg, ela põe fogo no bangalô onde moram e eles vão para Paris trabalhar num restaurante. Betty, que viu um manuscrito de Zorg, acredita que ele seja um grande escritor e não aceita que ele sirva mesas ou faça biscates. Ela datilografa o texto e manda para todos os editores da cidade, sem sucesso. O casal vive numa paixão sem limites, e o clima ora cômico, ora irresponsável cresce para um final extremamente dramático.
Betty Blue, ou 37°2 le matin (título original), foi um grande sucesso da década de 80 e pouquíssimo divulgado no Brasil. Recebeu indicação para o Oscar, Globo de Ouro e Bafta de Melhor Filme Estrangeiro. Ganhou o Grand Prix das Américas e o prêmio de Melhor Filme – Voto Popular, no Festival de Montreal e ainda o César de Melhor Pôster e o prêmio de Melhor Diretor no Festival de Seattle. Também disponível em DVD a versão do diretor, Jean-Jacques Beineix, com 185 minutos, que eu não aconselho. Possui uma das melhores trilhas sonoras da história do cinema, sendo talvez mais conhecida que o próprio filme. É longo, com cenas bem fotografadas, diálogos e tramas esquisitas e muito belas. Apaixonante. Drama, 116 min. Baixe esse filme.
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Trecho do filme:
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Lemon Tree

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Salma Zidane (Hiam Abbass) é uma viúva palestina, que sobrevive das compotas que faz com os limões do seu quintal, uma plantação com mais de cinquenta anos herdada de seu pai. Essa mulher solitária vê sua plantação e sustento ameaçados quando seu novo vizinho, Israel Navon, ministro de Defesa de Israel (Doron Tavory), se muda para a casa ao lado e a Força de Segurança Israelense declara que os limoeiros colocam em risco a segurança do ministro e precisam ser derrubados. Salma leva o caso à Suprema Corte de Israel para tentar salvar sua plantação. Nos tribunais, ela conta com a ajuda do jovem advogado Ziad Daud (Ali Suliman), recém-chegado da Rússia, com quem acaba se envolvendo. Esse romance é mal visto na comunidade palestina, onde a tradição dita que viúvas devem prestigiar o marido morto permanecendo sozinhas. A determinação e coragem de Salma despertam a admiração e solidariedade da esposa do Ministro, Mira Navon (Rona Lipaz-Michael) que é mantida isolada em sua nova casa e numa vida infeliz. Apesar das diferenças evidentes, as duas desenvolvem um laço forte e silencioso.
Lemon Tree é o título internacional da música que conhecemos como “Meu Limão, Meu Limoeiro”, que abre o filme homônimo e que a distribuidora optou por deixar, aqui no Brasil, com seu título internacional, sem tradução.
O filme baseia-se em fatos reais, dramatizados e ampliados pelo roteiro da jornalista Smadar Yaaron e do diretor israelense Eran Riklis, que assina também a produção. A música original é de Habib Shadah e a fotografia de Rainer Klausmann.
Etz Limon (título original) foi premiado como Melhor Filme pelo júri popular do Panorama no Festival de Berlin 2008, o mesmo onde o brasileiro Tropa de Elite ganhou o Urso de Ouro.
Um filme sensível, recheado de sutilezas – como a dificuldade de comunicação dos personagens do conflito que falam línguas diferentes – e injustiças explícitas, trás uma metáfora muito clara sobre a amargura dos limões que pode ser considerada mel diante da amargura vivida pelos protagonistas reais no conflito entre judeus e palestinos. Interessante, difícil e belo. Drama, 106 min. Baixe esse filme.
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A Desconhecida

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Irina (Ksenia Rappoport) é uma prostituta ucraniana em fuga de seu cafetão Muffa (Michele Placido) para o interior da Itália. Ela sofreu todo tipo de abuso e violência, e enquanto sua história é revelada em rápidos flashbacks a conta-gotas, a vimos preparando uma espécie de emboscada. Irina aluga um apartamento na cidade italiana de Velarchi, de onde pode observar a movimentação do casal de ouríveres Valeria (Claudia Gerini) e Donato (Pierfrancesco Favino) e sua pequena filha, Thea (Clara Dossena). Essa mulher meio resignada, triste e escura como as roupas que usa, ganha a confiança do casal observado e se torna a empregada doméstica deles, e seu mistério e objetivos são revelados como um quebra-cabeça, cuja peça final só se encaixa no final da trama. Algumas boas pistas falsas contribuem para aumentar a curiosidade e prender a atenção.
Esse filme com ares de triller policial é do cineasta Giuseppe Tornatore, que escreve o roteiro além de dirigi-lo. A trama é extremamente complicada e teria caído no melodrama não fosse seu ineditismo e o brilhante “mise-en-scène” do diretor, que se vale da trilha de Ennio Morricone para dar o tom de suspense à narrativa.
A atriz russa Kseniya Rappoport, em sua primeira atuação internacional, dá um show interpretando uma personagem que poderia ser duas. A menina Tea (Clara Dossena), carismática e comovente como todos os personagens infantis de Tornatore, é responsável pelos momentos suaves da história.
La Sconosciuta (título original) venceu cinco prêmios do David di Donatello, o oscar italiano: Melhor Filme, Direção, Atriz e Trilha Sonora, ganhou também o prêmio de público no European Film Awards e Melhor Filme no Festival de Moscou. Foi indicado ao Oscar de Filme Estrangeiro em 2008.
Apesar do filme abordar assuntos pesados como prostituição, tortura e tráfico de mulheres, Tornatore diz não acreditar em cinema de denúncia: “Não é mais preciso o cinema para se fazer denúncia social. Hoje a notícia circula tão rápido nos jornais e na televisão que o cinema não revela mais nada. Eu quis contar o drama de uma mulher, seja quem ela fosse”, afirmou o diretor, que não filmava há sete anos. É um filme denso, instigante e intrigante, e de extrema qualidade e cuidado. Beira à perfeição. Drama/Suspense, 118 min. Baixe esse filme.
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Mise-en-Scène: Palavra francesa adotada no meio cinematográfico em todo mundo ocidental. Termo originário do teatro clássico francês, refere-se à movimentação e posicionamento dos personagens no espaço cênico ou no set de filmagens. A terminologia também é usada como realização ou direção de toda uma produção cinematográfica.
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Lanternas Vermelhas

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Na China de 1920, Songlian (Gong Li) é uma universitária de 19 anos, que com a morte do pai e o empobrecimento da família, começa a ser pressionada pela madrasta a se casar, tornando-se a quarta esposa do abastado e poderoso Chen Zuoqian (Jingwu Ma), a quem sequer conhece.
Songlian chega ao novo lar num dia de verão e se vê sozinha num palácio tradicional que segue à risca as tradições seculares chinesas. Uma das principais tradições da casa é a das lanternas vermelhas. A esposa que o mestre escolher para passar a noite terá o pátio em frente à sua casa iluminado por lanternas vermelhas e terá direito à mordomias e privilégios. A regularidade da visita do mestre define o status de cada esposa na família. Logo, Songlian percebe o ambiente de inveja e intrigas entre as esposas e suas dificuldades para sobreviver em seu novo mundo.
Dividido em quatro partes – sugerindo as quatro estações do ano –, o cineasta Zhang Yimou (O Clã das Adagas Voadoras) apresenta quatro mulheres, de quatro gerações diferentes, menos como esposas e mais como concubinas, destinadas a servir o marido num ciclo perpétuo de obediência e humilhação. Seus enquadramentos, na maioria, são frios, distantes e simplistas. A fotografia de Fei Zhao desenha um contraste entre o brilho rubro que emana da casa iluminada pelas lanternas vermelhas e a escuridão em que as outras três concubinas fazem seus planos de sedução para o dia seguinte. O figurino é impecável.
Ganhou o prêmio David de Donatello e o BAFTA de Melhor Filme Estrangeiro além de ter sido indicado ao Oscar dessa mesma categoria. Recebeu o Leão de Prata de melhor direção para Yimou Zhang no Festival de Veneza de 1992.
Da Hong Deng Long Gao Gao Gua (título original ou ainda Raise The Red Lantern, em inglês) é uma denúncia não apenas ao horror da poligamia consentida, mas da luta pela sobrevivência das mulheres em meio ao machismo oriental. O filme que ficou proibido por vários anos na China, é um dos raros filmes de Zhang sem lutas orientais. O duelo é psicológico e dominado, em cena, pelas mulheres. Belíssimo. Para ver e rever. Drama, 125 min. Baixe esse filme.
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Gritos e Sussurros

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No final do século XIX, no silêncio de uma bela casa rodeada por um enorme parque, na região central da Suécia, Agnes (Harriet Andersson) está morrendo de câncer aos 37 anos. Ela está sendo cuidada pela empregada, Anna (Kari Sylwan), e por suas irmãs Maria (Liv Ullmann) e Karin (Ingrid Thulin). É no limiar da vida de Agnes o momento das grandes revelações – aquelas abafadas pela moral, pelos costumes e pela religião – que dão o tom dessa história.

Deixar transparecer o que se oculta sobre as formalidades das relações humanas é o objetivo do cineasta Ingmar Bergman nesse filme, que definiu Gritos e Sussurros como um filme que se aproxima mais de um estado de alma do que propriamente de uma história a ser narrada dentro dos princípios básicos do cinema.

A ausência de som ao longo do filme dá força à dramaticidade, que fica a cargo principalmente da expressão facial e da sólida interpretação das quatro atrizes.

O nome do filme é o fio condutor dos personagens. São os gritos de desespero causados pela dor, o tic-tac interminável do relógio e os sussurros das irmãs pelos sombrios corredores da casa, que compõe a trilha sonora.

A fusão de planos, que remete a flashbacks e divagações, estão sempre carregadas de morbidez, dor, insatisfação e angústia. A fotografia impactante de Sven Nykvist em vermelho, branco e preto, cria uma atmosfera quase atemporal. O tom vermelho sangue, presente em todos os cômodos, dá a impressão de que a casa está mais viva do que as pessoas que a habitam.

Ganhou o Oscar de Melhor Fotografia além de ter sido indicado para Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original e Melhor Figurino. Recebeu uma indicação ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro e duas indicações ao BAFTA de Melhor Atriz para Ingrid Thulin e Melhor Fotografia. Ganhou ainda o Prêmio Bodil de Melhor Filme Europeu e o Grande Prêmio Técnico no Festival de Cannes.

Viskningar Och Rop (título original), de 1972, é também um reconhecimento aos atores que são a alma do cinema de Bergman, e cujas imagens na tela ratificam a utopia cinematográfica do triunfo da vida sobre a morte.

Drama, 90 min. Baixe esse filme.

Trecho do filme: